domingo, 30 de novembro de 2014

Paradesporto: O esporte que dá sentido à vida


Não importa se ganha ou se perde, todos são guerreiros e vitoriosos 
O exemplo dessa gente determinada que comove e emociona



 Em Porto Alegre, em meio à Copa do Mundo e a tantos protestos e manifestações que ocupam redes sociais e as pautas de debates cotidianos, alheios a isso, existe uma associação que atua na inclusão de crianças, jovens e adultos através do esporte na sociedade. Essa associação chama-se RS Paradesporto.
Luiz Portinho, presidente da RS Paradesporto
Foto: Jo Reis


 Com um trabalho social importantíssimo, a organização atua há dez anos na formação de atletas que competem, muitas vezes, em torneios, copas e campeonatos internacionais, em diversas modalidades, mas que não aparecem tanto nos meios massivos de comunicação, tendo então que agir e divulgar o seu trabalho por suas próprias mãos, tal como o fazem no site www.rsparadesporto.org.br, além do canal no youtube Paradesporto TV. A associação trabalha com esportes como o basquete, a natação, o atletismo, o futebol, o rúgbi, entre outros. Também há seis anos desenvolve um projeto voltado a crianças com deficiência, realizando ainda, além das modalidades esportivas, aulas de dança contemporânea com essas crianças, aulas estas que são apoiadas pela Secretaria de Cultura do município. “No início desse trabalho voltado às crianças, contávamos com o apoio voluntariado dos próprios associados, além da participação em editais, na tentativa de captar verbas para um melhor desenvolvimento do projeto”, declara Luiz Portinho, presidente da associação RS Paradesporto. “Hoje, para esse projeto específico junto a crianças deficientes, contamos com o apoio do Criança Esperança, que nos apoia desde 2013 e que se tornou fundamental para o andamento do projeto, podendo hoje contratar diversos profissionais, tais como secretárias, estagiários, técnicos de enfermagem, entre outros, além de mais professores, atuando todos então juntos à associação”, afirma Portinho. Segundo ele também, graças a esse apoio financeiro do Criança Esperança, é possível hoje disponibilizar materiais diversos para as aulas, disponibilizar transporte, além de ampliar de forma significativa o trabalho, que era feito com aproximadamente 15 crianças e que hoje trabalha com 60.
Luiz Portinho junto de alguns alunos e funcionários da RS Paradesporto
Foto: Jo Reis
  Além das dificuldades corriqueiras dos espaços para o desenvolvimento das atividades e das dificuldades financeiras, há também o preconceito da sociedade, a ignorância sobre o assunto, sobre as diferentes e inúmeras necessidades especiais que cada indivíduo possui, existe também ainda o preconceito do próprio deficiente. “Às vezes tem o cara que, mesmo na cadeira de rodas, com uma deficiência bastante explícita, se nega a participar ou ser incluído no projeto, alegando que não é como a gente”, explica Luiz Portinho, deixando claro que há uma resistência preconceituosa por parte de alguns portadores de deficiência, por não se considerarem eles mesmos deficientes, por associarem isso de forma pejorativa. “Enquanto muitos se empolgam com o nosso convite para conhecer a associação, muitos nem ao menos se reconhecem como deficientes, e isso dificulta bastante a nossa tentativa de inclusão perante a sociedade, já que há preconceitos que partem dos próprios portadores de necessidades especiais”, afirma Portinho, porém ele considera que hoje, graças ao esporte paralímpico, este preconceito amenizou-se, pois no passado essa perspectiva preconceituosa, oriunda da falta de conhecimento, era mais presente do que nos dias atuais. “Ainda hoje existe o paradigma das pessoas deficientes serem consideradas doentes e incapazes, tanto por empresas que contratam apenas pela obrigação de cumprir suas cotas, quanto ainda por outras ONGs e associações, que tratam os atletas e alunos como pacientes”, declara Luiz Portinho. “Temos como objetivo dar autonomia aos nossos alunos, a viver de forma independente na sociedade, a cair e levantar como uma pessoa comum. Paciente é doente, e não somos doentes, somos portadores de necessidades especiais, e podemos atuar no mercado de trabalho como qualquer pessoa”, afirma Luiz Portinho.
Treino da equipe de basquete
Foto: Arquivo RS Paradesporto

  

 Recentemente, no sábado dia 22 de novembro, a equipe de basquete da RS Paradesporto, que também faz parte da Confederação Brasileira de Basquete em Cadeira de Rodas, foi vice-campeã estadual na copa que reúne todas as equipes de basquete paralímpico do estado. A associação já formou atletas paralímpicos profissionais, que disputam competições internacionais, além do trabalho voltado à inclusão social e a capacitação psicológica e profissional, através da autoestima que o esporte dá às crianças e demais alunos da associação. 



sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Os Homens do Triângulo Rosa

 O espetáculo Os Homens do Triângulo Rosa, do grupo Cia. Teatro ao Quadrado apresenta uma obra que vem de encontro a uma questão pouco conhecida do público sobre o holocausto, a perseguição aos homossexuais alemães do período nazista, tema considerado tabu até os dias de hoje. De maneira impactante, ele aborda o tema e sugere a reflexão sobre essa intolerância aos homo afetivos que, ainda hoje, é vista por muitos como uma aberração.
Flyer Divulgação
 Com uma trilha sonora executada ao vivo, no estilo dos velhos cabarés, outrora muito populares na capital alemã, a peça desenrola as relações amorosas de uma personagem conflitada entre a vida boêmia que levava com seu companheiro bailarino, sua conturbada relação familiar, até a prisão e confinamento nos campos de concentração nazistas. Uma vida que passa do glamour à marginalidade em instantes.
 No enredo, que é uma adaptação da obra Bent, de Martin Sherman, mesmo com a ascensão do partido nazista liderada por Adolf Hitler, os cidadãos alemães que se identificavam como homossexuais, ou apenas simpatizantes, gozavam ainda em meados da década de 30 alguma tranquilidade em relação às perseguições étnicas que já ocorriam no território alemão, pois o braço direito do Führer, o oficial Ernst Röhm, líder das SA, até então era conhecidamente homossexual, o que garantia uma mínima proteção àquelas pessoas, no entanto, no ano de 1934, na noite conhecida como Noite das Facas Longas, a caçada aos homossexuais foi iniciada, quando dezenas de membros do partido nazista foram mortos, inclusive Röhm, de quem cujo próprio Führer temia um golpe militar, desencadeando então a partir dessa retomada a unificação das polícias alemãs e a perseguição oficial a judeus, comunistas, ciganos, deficientes e, portanto, aos homossexuais.
Foto: Luciane Pires/Divulgação
 Enquadrados então como aberrações de mais baixo escalão, inclusive entre os próprios presos do regime nazista, os homens identificados como homossexuais carregavam em seus uniformes o tecido na forma de triângulo, de cor rosa, cujo simbolizava então a sua condição e sua diferenciação entre os demais presos. A trama aborda a dor e o sofrimento sofridos por esses homens que, assim como outros grupos perseguidos, infringiam a lei nazista apenas por existirem, por demonstrarem carinho e afeto, mesmo que entre os próprios oficiais houvesse também homossexuais, pois na sua hipocrisia, a raça ariana era imune a tais degenerações.
 São aproximadamente duas horas de espetáculo, das quais grande parte se passa dentro do campo de concentração nazista de Buchenwald, onde as dores e as transformações provocadas pela agonia vivida pela personagem principal Max (Marcelo Ádams) acontecem.


Foto: Luciane Pires/Divulgação

 Com cenas impactantes de execuções e humilhações desempenhadas pelos oficiais nazistas, atuações soberbas de um elenco admirável, também com momentos por ora leves e descontraídos, porém seguidos de angústia e de dor, o espetáculo foca no ser humano, na melancolia de uma vida aprisionada, mas também evidencia um sentimento tão comum, tão presente desde os primórdios da raça humana, o amor, mostra que, mesmo com os corpos imóveis, mesmo aprisionados, mesmo na dor e no cansaço, a mente sã não pode ser aprisionada e que, no fundo da imaginação, é possível tocar, acariciar e gozar os prazeres da paixão, que correntes, grades e uniformes não são capazes de trancafiar o desejo, e ainda conclui nos obrigando a refletir sobre a intolerância, o preconceito, provando a todos os espectadores que, mesmo um homem nazista, um homem judeu ou um homossexual, todos sofremos e amamos. No fim, todos somos iguais.
Foto: Luciane Pires/Divulgação


O espetáculo segue até o dia 16 de novembro no Teatro Renascença, sextas e sábados às 20 horas e domingos às 18 horas.





Ficha Técnica:

Direção: Margarida Peixoto
Dramaturgia: adaptação das obras literárias Bent, de Martin Sherman; Triângulo rosa: um homossexual no campo de concentração nazista, de Jean-Luc Schwab e Rudolf Brazda; e Eu, Pierre Seel, deportado homossexual, de Pierre Seel
Elenco: Marcelo Ádams, Frederico Vasques, Gustavo Susin, Gisela Habeyche, Alex Limberger, Pedro Delgado e Edgar Rosa
Instrumentista: Elda Pires
Figurinos: Antônio Rabadan
Cenografia: Yara Balboni
Trilha Sonora: Marcelo Ádams (Letras) Sobre Música de Kurt Weill
Iluminação: Maurício Moura
Maquiagem: Margarida Peixoto
Preparação Corporal: Angela Spiazzi
Produção: Cia Teatro Ao Quadrado
Assessoria de Imprensa: Adriana Lampert
Fotografia: Luciane Pires Ferreira
Programação Visual: Maria Eugênia Jucá
Realização: Prêmio Myriam Muniz De Teatro 2013 – Funarte – Ministério da Cultura





segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Por Dentro do Morro



O festival Morrostock chega à sua oitava edição neste ano e conta com uma programação musical que vai do hard core ao rock psicodélico

 Realizado na área rural de Sapiranga-RS, o festival contempla público e artistas com um contato direto com a natureza, onde estes acampam, comem ao ar livre, respiram o puro ar das montanhas e apreciam uma gama eclética de músicos que passam pelo festival, além das oficinas terapêuticas e de bio construção.
 Nesse ano, dentre as várias atrações musicais do festival, passou também pelo palco o polêmico grupo porto-alegrense Putinhas Aborteiras, formado por meninas que manifestam suas indignações e seus protestos através do funk de maneira inovadora, juntando o ativismo político a esse gênero musical que sempre é lembrado pela sua vulgaridade e pelo apelo sexual de suas letras.
Putinhas Aborteiras no palco do Morrostock
Foto: Ragi Sh
 Diferente do funk carioca no discurso, porém muito próximo na sonoridade, o grupo que se auto intitula anarco feminista aborda temas voltados ao universo feminino, porém um universo que não estampa as revistas de moda e comportamento, mas sim suas aflições perante o machismo entranhado na sociedade, reivindica o direito sobre o próprio corpo e suas escolhas e também protesta contra a supremacia masculina no cenário musical. Tal como outrora fora o movimento punk, uma música considerada pobre, de mau gosto e marginal pela grande mídia e por uma classe musical mais erudita, elas utilizam esse estilo de música, o funk, que também ainda hoje é considerado de mau gosto e marginalizado por grande parte da população, principalmente pela classe musicista, para abordar temas que consideram pertinentes, mas negligenciados pela grande massa da sociedade capitalista e machista, agredindo então dessa forma os olhares mais conservadores do público de hoje. “A música acaba sendo um pretexto para nos manifestarmos e nos organizarmos de forma política, desde o nosso visual, a nossa axila peluda, até quando falamos sobre uma menina que foi tocada por alguém sem ela consentir, tudo isto é política”, afirma uma das integrantes do grupo, de maneira descontraída, porém incisiva, e que prefere não se identificar por questões de segurança. Ainda também rebatem as críticas musicais que vem sofrendo, pois para muitos, o desempenho musical é bastante precário, porém mais uma vez fazendo alusão ao antigo movimento punk, afirmam que devem fazer música mesmo sem saber fazê-lo, que não precisam ser verdadeiras musicistas para tal. “Estamos aí para quebrar o estereótipo de que mulher cantora tem que cantar bem”, sustenta a integrante, que prefere não se identificar.
 Formado em meio ao movimento de debate Encontro Dos De Baixo há aproximadamente um ano em Porto Alegre, o grupo já gerou muita polêmica no cenário gaúcho. Recentemente apresentaram-se no programa Radar da TVE-RS, cujo este, por ser um programa ao vivo, sofreu censura que, de acordo com o grupo, partiu de dentro da própria emissora, o que impediu então o programa de reproduzir em tempo real a performance do grupo, sendo apenas divulgada a sua apresentação em horário alternativo e não ao vivo como o seria. “Fomos convidadas a participar do programa para fins de debate e contextualização devido à Marcha das Vadias, que aconteceria no próximo final de semana, e não apenas para tocarmos nossas músicas” declara a integrante conhecida como Cacau, no entanto durante o programa não fora exibida a sua apresentação, indo ao ar na íntegra apenas na madrugada daquele dia, porém isso não evitou protestos diversos de outros órgãos que, de acordo com elas, ainda associavam o grupo ao candidato à reeleição do governo do estado. “A mídia em geral, por ser ano eleitoral, nos usou para enfraquecer a candidatura do atual governo, usou as Putinhas Aborteiras para tentar derrubar esse atual governo como se nós fôssemos apoiadoras desse apenas por estarmos em uma TV pública. Somos apartidárias, mas não apolíticas, e não apoiamos governo nenhum”, declara Cacau. Afirmam também terem sido ameaçadas pelo público em geral após a exibição do programa, pois o seu vídeo logo se encontrava disponível na internet, o que rendeu milhares de acessos, gerando então muitos protestos através das redes sociais e pelas ruas, onde dizem terem sido intimidadas.

 No domingo do final de semana dedicado ao rock pesado, passaram ainda pelo palco do Morrostock as bandas Balde Sujo, Vultures HC, Devir, Atritos, Anomalia Social e Warkrust, fechando com sucesso o primeiro fim de semana do evento, que começou na sexta feira de maneira conturbada.

                                          O Morro deslizou, mas não caiu

Paulo Zé, o chefe da produção
Foto: Marcelo Cabala
 O festival que inicialmente seria realizado no sítio Picada Verão, também localizado no município de Sapiranga, teve uma drástica alteração na sua programação e localização. No primeiro dia do festival, sexta feira dia 10 de outubro, a polícia impediu o seu prosseguimento, enviando um contingente de viaturas e tropas para a paralisação do evento, alegando portar uma lista com 50 assinaturas feita pelos moradores próximos ao sítio, e que fora encaminhada ao Ministério Público, reclamando o distúrbio ocasionado pela movimentação e pela música alta do evento. No entanto, seria o quarto ano consecutivo que o festival é realizado nesta localização, e até a véspera do evento, quinta-feira, ninguém da produção havia sido informado sobre o descontentamento daquele grupo de moradores, tampouco sobre a lista de exigências burocráticas apresentadas nesta ocasião. “Na quinta-feira, dia 09, recebemos uma lista de documentos exigidos para fins de autorização do festival, no entanto, era impossível a emissão destes documentos em menos de 24 horas”, declara Paulo Zé, que é a principal cabeça por trás da produção do festival. “Foi um golpe desleal de alguns moradores munidos de preconceito e também de interesses políticos para impedir a realização do festival, que já está na agenda cultural da cidade há anos e que tem apoio de grande parte da população local”, afirma Paulo Zé. Devido então a essa súbita paralisação, algumas bandas que se apresentariam na sexta-feira não o fizeram, e o festival foi transferido para o Bar do Morro, lugar este onde tudo começou há oito anos, junto ao morro Ferrabrás, também em Sapiranga. “Graças ao Bar do Morro e sua administração nós podemos dar sequência ao festival, já que o lugar também comporta espaço para acampamento e hoje possui toda a documentação exigida para realização deste tipo de evento”, declara Paulo Zé. Depois de todo o transtorno da remoção e da colaboração e compreensão do público presente, o festival transferiu-se de lugar, porém as demais atividades programadas para o sítio Picada Verão se mantiveram, tais como as oficinas em bio construção e terapêuticas, pois as suas estruturas já estavam instaladas havia semanas e não seria possível a sua remoção para o novo lugar. “Disponibilizamos um micro ônibus para levar o pessoal que se inscreveu nas oficinas, saindo do Bar do Morro para o sítio Picada Verão, pois ansiamos em manter a programação das oficinas sem prejudicar os seus realizadores e o público”, afirma Paulo Zé.

 As oficinas em bio construção consistem na elaboração de ferramentas sustentáveis, onde os participantes aprendem como reaproveitar materiais para elaboração de instrumentos variados; aprendem a compostagem de resíduos orgânicos; o manejo ecológico de bambu, dentre outras atividades, sempre focando na sustentabilidade. Já as oficinas terapêuticas são realizadas na Tenda Zen, espaço dedicado aos exercícios de meditação, Yoga, Tantra, dentre outras técnicas orientais, localizada também no sítio Picada Verão.

 Para o último final de semana o festival ainda conta com nomes como Tequila Baby, Wander Wildner, Júpiter Maçã, entre outros artistas do rock nacional e internacional, fechando então a programação no domingo dia 19 com as bandas gaúchas Dingo Bells e Gustavo Telles e os Escolhidos, com muita natureza, sustentabilidade e música, na oitava edição deste festival que enriquece a cultura local do interior do Rio Grande do Sul.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Bukowski - Histórias da Vida Subterrânea

 Com doses sonoras de Tom Waits e Johnny Cash, um destes fã declarado e o outro, dono de uma composição que inspira o título de um de seus contos, a peça cumpre o seu papel, pois naqueles que conhecem a obra do velho Buk, o texto às vezes chulo, cru e vulgar, soa absurdamente natural, sem que cause estranheza ou repulsa, nem mesmo nas cenas de nudez e exageradas crises de tosse, cuspes e xingamentos, nada desse ambiente sujo e fétido seria novidade aos leitores do velho safado. O roteiro adaptado de sua prosa, que se cruza por seus contos, romances e também crônicas, faz jus ao ritmo caótico, escatológico, maldito, às vezes também engraçado, de sua obra, que refletia nada além de sua vida, sua rotina e desgraça, mesmo o texto sendo falado num português bastante gaúcho, não deixou a desejar, pois o lemos dessa maneira, a sua tradução também faz uso de expressões locais para facilitar o entendimento e principalmente, para que o leitor sinta uma parcela da real intenção e universo do escritor, um universo de bebedeiras, ressacas, mulheres vulgares, de criaturas dilaceradas pela vida, mas que também são cômicas em suas tragédias. Seus poemas também são citados e usados na peça, sendo nos seus momentos, quando recitados de forma integral, onde a peça talvez mais valorize a sua literatura, sendo menos usados e incluídos do que realmente poderiam sê-los, mas sem deixar a sensação de falta destes, pois antes de conhecido por sua prosa, Bukowski fora conhecido como poeta, tendo na antologia “O Amor É Um Cão Dos Diabos” sua principal obra. Talvez também tenham sido negligenciados e esquecidos os romances “Factótum” e “Hollywood”, pois na peça, nota-se o foco nas relações conturbadamente amorosas que Bukowski mantinha com mulheres perturbadas e bêbadas, tais como ele. O primeiro destes romances citados retrata, além dos relacionamentos amorosos, uma rotina na agonia de extensas brigas e lesões em diversos bares, um escritor ex-pugilista soterrado pelo amargor da sociedade, lutas bêbadas com garçons valentões e todo o universo claustrofóbico de Chinaski, também explorado em outras obras, mas que não aparece na peça. O outro retrata, de forma bizarra e hilária, no seu estilo já clássico, a odisseia que fora toda a produção do filme criado a partir de uma de suas histórias como Henry Chinaski, transformada em roteiro, desde o primeiro contato que o diretor Barbet Schroeder (no romance com nome fictício, claro) fez com ele, figura esta tão maluca e persistente, até a sua conclusão e lançamento. “Hollywood” conta a loucura que deu origem ao filme “Barfly”, e que também não consta no espetáculo.

 Mas na caracterização, e fundamentalmente, na interpretação dos atores, sentimos a atmosfera depressiva, às vezes também repugnante, selvagem e hilária, das personagens que compunham a vida do mestre escritor, e que de maneira inevitável, inundava suas páginas ao batê-las na máquina, também o fato de o teatro ser pequeno, dando uma proximidade do público com o palco, cenário e atores, e este estar absolutamente lotado (fato dado ao tremendo sucesso do escritor americano em terras porto-alegrenses, pois sua edição e publicação pela editora local LP&M o tirou de um estado outrora de obscuridade subterrânea, para um de cult e finalmente pop) causa um impacto que, talvez, seria digno de elogios do velho safado, se bem que, acho que não. Mas para seus leitores, com certeza sim.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Guns N' Roses em Porto Alegre - 2014


 Bom, em resumo, pode-se dizer que foi um bom show, ao menos para todos aqueles adolescentes que formavam a maior parte do público presente. Para mim foi bom porque visualizei e ouvi (?) o frontman que mais exerceu influência sobre mim desde minha tenra mocidade, mesmo que entre pilares gigantescos e à uma distância desconfortável, com todo o calor que fazia dentro do pavilhão e ainda submetido à extorsão, caso fosse necessário o consumo de líquidos durante o show, tudo isso tornou tudo bastante desconfortável. Mas é isso, por tal aspecto os ingressos VIP’s e assemelhados nos saem tão caros. Você paga para ficar debaixo do mesmo teto que seu ídolo, não muito mais que isso.
 Então, devido aos recentes concertos dados pela banda, por alguns vexames inclusive, já esperava um atraso imenso, falta de qualidade talvez na performance vocal de Axl e qualquer tipo de imprevisto, pois não só dado os fatos recentes, clássicas são as bagunças e confusões desde sempre no âmbito do Guns N’ Roses. No entanto, não houve um grande atraso, subiram por volta das 22:20, após a banda de abertura ter deixado o palco às 21:30. E se tratando da voz, estava sim abaixo daquele padrão antigo, bem abaixo, no entanto, todos já sabem que o ruivo gordicho não tem mais o mesmo pique e, principalmente, a mesma potência na voz, porém o que me incomodou e irritou mesmo foi a baixa qualidade sonora do evento. Não somente quando cantava, mas em momentos de puro instrumental, eram notáveis os ruídos agudos vindos dos PA’s, cujos aumentavam drasticamente quando a voz de Axl entrava, essa que oscilava nos volumes por demais, às vezes mais alto que tudo e estourando as frequências agudas, às vezes tão sumida que nem parecia que cantava o rapaz. Esse quesito foi o mais grave, a sua voz já não está tudo isso, soando às vezes como um falsete, tal como um soprano Mickey Mouse, porém como disse, todos já sabemos como anda sua voz, porém o erro maior foi do equipamento e de seus operadores.
 Enquanto executavam a faixa “Better”, do disco “Chinse Democracy” (que é um bom disco por sinal), Axl interrompeu a música alegando estar ouvindo um ruído no seu retorno, um problema técnico suficiente para que este parasse a música na metade e reiniciasse em seguida, pedindo desculpas por isso. Imaginem se ele ouvisse o que eu estava ouvindo lá atrás...
  A banda é excelente, seus 3 guitarristas intercalam solos e bases entre si, imitando inclusive os timbres clássicos de Slash, principalmente DJ Ashba em “Sweet Child O’ Mine”. Ficou impecável. Todos com seus momentos solo no palco, e um deles , Ron Thal,  tocou e cantou uma música, sendo essa a única que não reconheci no repertório da banda, também este executou de forma sublime o “Tema da Vitória”, aquele do Airton Senna. Foi um grande momento do show.
  Algumas músicas no set surpreenderam, tal como a antiguíssima “Nice Boys”, do disco “Live Like a Suicide”. Foi uma pedrada. “I Used to Love Her” foi também um ponto forte do show, assim como “Estranged”, que havia dado problema no show de Curitiba, me parece. Do Chinese Democracy,  as faixas "Catcher in the Rye" e "Shackler's Revenge" foram destaques. “You Could Be Mine” não ficou legal, a voz parecia que sumia por completo, porém isso aconteceu em todas as faixas, creio, mas nessa foi entristecedor. Talvez sua voz não alcançasse o volume adequado para esta em questão, mas a falha técnica, o maldito zumbido agudo, os sons muitas vezes indecifráveis devido ao espaço não ter um mínimo de isolamento acústico, tornou a coisa bem razoável, mas digo, a falha foi generalizada, e não apenas dos músicos do palco, porém estes deveriam assegurar que o som dos PA’s fosse adequado. Mas talvez fosse isso impossível naquele lugar, que estava lotado.

  Ainda o baixista Tommy Stinson tocou e cantou o clássico dos Sex Pistols “Holiday in the Sun”, que ficou bem legal, sua voz e seu estilo se encaixam totalmente à vibe punk inglês. Antes de "Knockin’ On Heaven’s Door", Axl (que demonstrou simpatia durante o show) dedicou esta às vítimas da boate Kiss em Santa Maria, e a todos que houvessem perdido alguém amado nos últimos tempos. Legal.
 Surpreendeu-me também o cover de “The Seeker”, clássico da banda britânica The Who, executado próximo ao fim do show, com Axl nos vocais. Ficou bem interessante também, mas claro, tudo isso em meio aos zumbidos e sons indecifráveis que, de onde eu estava, incomodavam demasiadamente.
 Chegando então ao fim do show, a banda executa a previsível “Paradise City”, sem bis, deixando de todos os seus grandes clássicos de lado apenas "Civil War", cuja eu ainda tinha esperanças para o final.

 Foi um bom show para mim, que já sabia das possíveis merdas, e também pelo preço que paguei, metade do valor oficial, graças ao Grupon e a um cartão de crédito com crédito. Foi válido, mas se houvesse pago 170 reais, ficado onde fiquei e ouvido o que ouvi o tempo todo, teria me arrependido muito. O show do Slash no Pepsi on Stage foi bem melhor. Depois disso, só volto a assistir ao gordinho ruivo se o cabeludo da cartola estiver do seu lado.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

To the Scarlet Gipsy Pearl

Seu carinho e postura eram inspiração
Sua natureza e espírito amorosos, compaixão

E seus entes com amor
Lhe chamavam de rainha
Cigana escarlate
Música, dança, alegria

E em seus versos apaixonados
A beleza simples surge sincera
Pois bobos são os corações
Das pessoas mais belas

Saudades semeadas amplamente
E lágrimas conformadas comemoram tua vida
Que despediu-se com flores, música,
Orações e poesia

Existência celebrada, contemplada, vivida
Que persiste viva nas memórias restantes
Retorna à terra e ao ar
Seguindo o ciclo constante
Tristezas e glórias sofridas
Realimenta seus filhos e a si no instante
Em que todos somos uma grande célula viva

A mãe severa que cuida e educa
Que brande sobre sua falta de sono
Vinho combustível falante
Jóias, vestidos e sonhos

Dance rainha, dance sua canção
Dance até o fim, na luz e na escuridão
Dance para si e para nós
A sua dança valente
Dance sorrindo, como sempre o fez
Pois tua dança nas nossas memórias
Nunca será diferente




"Bandido bom é bandido morto"

 Um favelado, negro, fumador de pedra que assalta com uma faca, não é menos bandido que um general de dez estrelas que mata milhares, ou melhor, que manda matar, de forma fria e assassina, pelo bem da ordem mundial. 
 Ou ainda, que um advogado corrupto que explora famílias em busca de “justiça”, ou menos bandido que prefeitos, vereadores, deputados, que desviam, alteram, infringem a lei que eles mesmos criaram para beneficio deles mesmos, ou bancários e empresários que abusam do lucro, pois sempre precisam lucrar mais e pagar menos. Também não é menos bandido que muitos laboratórios que investem mais em publicidade, em associações com jovens médicos, oferecendo-lhes benefícios e regalias em troca da venda de seus produtos, do que investem em pesquisas, pois aqueles não trabalham para quem está adoentado, mas sim para quem pode pagar. 
 
 Para haver um bilionário é necessário haver muitos milhões de miseráveis. 

 A publicidade obriga o consumo, mas a economia o proíbe. 

 O consumismo e o modismo querem tornar todos iguais, padronizados pelos ricos, frustrando os pobres, aprisionando a todos. Os da classe média querem o que não têm, escravos do fim do mês e do cartão de crédito. Os ricos, prisioneiros de suas celas pessoais, de imponentes casas cercadas por muros, com seus seguranças, suas tecnologias de ponta, são escravos do individualismo, do medo. E os de baixo, escravos da fome, da ignorância, da perseguição policial, pois nem o direito de ser pobres estes têm, lhes resta comer o que cai da mesa, massacrados pelos ricos, ignorados por todos. 

 Os países responsáveis pela paz mundial são os que mais armas químicas possuem, e os que mais as usaram e os que mais guerras travaram. 

Não há justiça neste mundo sem pé nem cabeça.