terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Bent - 1997

 Que filme! O meu amigo Alex Limberger havia me indicado este filme há um tempão, mas só agora o assisti. Assim como a peça Os Homens do Triângulo Rosa, o filme é baseado na obra de Martin Sherman, que é roteirista deste. Com uma atuação incrível de Clive Owen, além do elenco com Ian McKellen, Mick Jagger, uma breve participação de Nicolaj-Coster Waldau (O Jaime Lannister de Game of Thrones) e uma mais breve ainda atuação de Jude Law, o filme expõe, tal como a peça, o horror do holocausto, porém abordando um tema que ainda hoje é tabu, os homossexuais perseguidos naquele período. E na data que marca os 70 anos da libertação de Auschwitz, o filme é uma baita pedida. Assista essa obra e essa aula de como não deve agir a raça humana, mas também uma aula de como a imaginação e o afeto, o amor, podem se sobressair ao aprisionamento físico, desde que a mente esteja sã e livre.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

trecho de La Playa



 Escrevi isso entre 2011 e 2012, na primeira temporada que passei numa praia em Santa Catarina (qual será?). É uma espécie de memória, mas com pitadas de conto, de crônica. Na verdade, eu não sei no que se encaixa esse texto, sei que exponho algumas coisas, um pouquinho comprometedoras talvez, mas na verdadeira intenção de praticar a literatura apenas, mesmo que a referência seja a própria vida pessoal. O texto vai transcorrendo de acordo com o passar dos dias, mudando os assuntos de maneira natural.






... Após a tarde em que servi pela última vez as mesas do lugar, depois das 18h, despedi-me e me direcionei ao caminho de casa, quando do nada, assim, de repente, surge uma tempestade inesquecível, que pegou a todos de surpresa, que foi aumentando, aumentando, até se tornar uma tempestade torrencial, arrancando galhos, derrubando postes, cortando a rede elétrica, assustando a todos, realmente. E eu na estrada, no caminho para casa, no meio da pior tempestade que já cruzei a pé, sem guarda-chuva, com muito vento me empurrando ao revés, derrubando coisas à minha frente, inclusive um pequeno arbusto que veio em direção à minha cabeça, agora soando engraçado, mas que na hora fora realmente tenso. Quase uma hora de caminhada. Essa cruzada fez-me lembrar os clássicos filmes no Vietnã. Vento forte, frio, chuva, um desafio a cada passo. Claro que sem todas as bombas e todos os corpos dilacerados, mas com uma raiva, um sentimento de bravura que me invadia, me impelia a seguir adiante, pois o desafio de cruzar as estradas desertas, em meio a toda a vegetação do lugar, com toda a tempestade acontecendo, sim, me fez sentir-me um John Rambo tropical fugindo dos vietcongues, lutando pela vida. Exagero? Talvez, mas você não estava lá, você não sabe o quanto eu caminhei, só eu sei as esquinas por que passei.

 No começo eu tentei, quase que desesperadamente, me adaptar ao clima, ao “movimento” da praia, temia (acho que ainda temo um pouco) essa inconstância da vida, todos esses ciclos que vão e vem, toda a insegurança que isso traz, por isso tinha a necessidade de adaptação urgente, tão esmagadora, me tornando inseguro ao encarar a nova realidade, o novo mundo.
 Hoje acho que essa inconstância é um dos baratos da vida, claro que algumas coisas pesam por serem assim, ou por acabarem sendo. Família, amor, amizade, essas coisas não devem ser inconstantes, devem ser profundas e verdadeiras, quanto mais duradouras, melhor, porém no fim, maior também é a queda. Mas esse é o ciclo, devemos evitar a queda, trabalhar para que o próximo degrau esteja ali, pronto para o nosso pé.

 Minha necessidade de adaptação implica na minha vestimenta, no meu modo de falar, nas músicas que ouço, algo como “em Roma, aja como um romano”, porém logo esse sentimento dissipou-se, a naturalidade retorna, percebe-se que “em Roma, pense e entenda você mesmo um romano, não finja ser um”. Não finjo ser outra pessoa, me adapto, mas sigo sendo eu, eu mesmo e minhas loucuras, o pacote inteiro adaptado ao novo ciclo, adaptado mais uma vez à inconstância da existência.

 E mais uma vez acabou-se um ciclo aqui na praia, e inicia-se outro, minha namorada acabou por “quebrar os pratos” com a gerente do restaurante que trabalhava. Veja bem, o lugar é pesado, as responsáveis, duas mulheres, são namoradas, vivem juntas, nas dependências do próprio restaurante. A dona, a chefe de cozinha, a male do casal. A gerente, a female. As duas brigam como cão e gato, brigas presenciadas há três temporadas pela minha parceira. Quase sempre ocorridas na cozinha, vazando gritos e insultos até os ouvidos de algum cliente no bar. A dona construiu seu império sozinha, com garra e foco, mas isso (ou sei lá o que mais!) a deixou amarga, fria, uma alma azeda, que transtorna com a sua presença, pesa o ambiente ao seu redor. Desafortunados são seus colegas de cozinha. Já a gerente é uma pessoa meiga, quase que totalmente o oposto da chefe, porém, ela não está desde o princípio do negócio, por isso ela é a gerente, não sócia, deve satisfações como qualquer outro empregado no restaurante à megera. A pobre criatura ouve tantas reclamações que acaba surtando. Uma paranoica, que nunca deixa de exigir empenho robótico dos seus funcionários, sempre repassando as ordens da grã mestre. Porém esse transtorno do qual ela parece ser vítima, não impede que ela também se torne opressora, a tornando submissa ao tratamento que recebe, e revertendo seus infortúnios a toda equipe de produção, de atendimento. Uma relação insana, conjugal e profissional. De amor e ódio.
 Após todas essas visões de energia radicalmente negativa, depois de tantas reclamações por ela experimentadas, depois de olhares fulminantes de reprovação, quase que diários, mesmo com toda a dedicação e profissionalismo empenhados por minha namorada, assim ela desistiu, chutou o balde, abandonou tudo, relatando sua insatisfação em um simples bilhete deixado no bar do restaurante e no testemunho geral de seus colegas.
 Contudo, meu trabalho no lugar (que era afastado quase que 90% desse ambiente praticamente hostil, pois me encontrava no estacionamento, sozinho com meus livros e música, a não ser nos momentos de banheiro e lanche, que acabava por encarar a figura cadavérica medieval da chefe, mesmo ela sendo uma pessoa de beleza femininamente bela, seu rosto é feminino e belo, mas sua expressão é feia, rancorosa e masculina) foi pelos ares, junto com a demissão de minha namorada. A gerente afirmou que, por ela, continuaria sem problema algum minha função por lá, mas logo que consultou o Mefistófeles de avental, declarou que não seria mais necessária minha presença, iniciando mais uma vez a saga, a busca por mais um emprego, por uma fonte de renda, agora para nós dois, mais dois novos desempregados en La Playa.

 No entanto, esse afastamento mútuo do trabalho já nos rendeu mais bons momentos juntos. Em um deles, fizemos uma trilha espetacular entre duas praias próximas aqui da região. Uma trilha em uma encosta sobre o mar, cruzando rochas altas, rochas que recebem a fúria do oceano, levantando a água a metros de altura, também com espinhos e animais de peçonha. Tudo sob um belo e escaldante sol, contemplando uma beleza singular. 45 minutos de caminhada até a praia ponto de partida da trilha, mais uns 45 minutos também pela trilha, onde nos demos com outra magnífica praia, também de muitos turistas gringos, gente rica e fútil por todo o lado, mas todos um, uma mesma massa de gente sob o mesmo céu azul, desta terra abençoada por paisagens tão belas e inspiradoras.
 Ainda antes de retornarmos pela mesma trilha, ali jogados no chão estávamos quando visualizei uma garotinha e seu pai. Ao nosso lado, a garotinha tinha um olhar triste e distante, devia ter uns 9 anos. Gordinha, sozinha, logo me identifiquei com ela, senti um pesar imenso naquilo, me vi também sozinho, gordinho, branquelo na praia, onde todos pulam, gritam e brincam, e eu sigo sozinho, ou sozinha, vendo tudo como um espectador da felicidade alheia. Tive vontade de puxar papo com ela, perguntar seu nome, idade, essas coisas que se perguntam às crianças, mas segui calado, pois tanto quanto ela é, sou mais pensador do que socializador. Queria dizê-la que era linda, que podia ver nos seus olhos o futuro brilhante que a esperava, que tinha um ótimo e amoroso pai (que estava sempre demonstrando preocupação com seu conforto ali na areia), que podia ver o brilho dela, um brilho emanando pureza, inteligência, futura sabedoria, que pessoas assim, que talvez se achem feias quando crianças, estão na verdade trabalhando o interior, o espírito, não espírito do gênero Chico Xavier charlatão, espírito no sentido de consciência, de aprimoramento interior e intelectual, de autoconhecimento. Crianças quietas, caladas, às vezes tristes, tristes com sua aparência, com sua condição solitária, futuramente se tornam pensadoras, artistas, com virtudes eternas, não com preferências fúteis e efêmeras, como a aparência física e externa. Se tornam pessoas de interior belo, para sempre terão nas suas consciências a empatia pelo desolado, pelo tímido e acanhado, mesmo já tendo quebrado essa barreira de socialização que as crianças tanto sofrem no convívio comum com outras crianças, na escola, nas ruas, etc. Claro que, salvo raras exceções de casos de psicopatia, por exemplo.

 Por isso sou o que sou, porque um dia fui sozinho, solitário, triste, desenvolvi em mim pensamentos, não futilidades egocêntricas, tal como as crianças ricas e belas desenvolvem com total apoio dos pais. Os pais nada querem além da felicidade dos filhos, custe o que custar, porém nem sempre o que representa felicidade momentânea é saudável para todo o resto da existência do indivíduo. A criança é um indivíduo, mas às vezes é tratada como uma jóia. Será que não se lembram, os pais, que tudo o que é visto, ouvido, sentido nos primeiros anos de vida, acredito que até uns 12 anos, fica para sempre na nossa memória? Molda definitivamente nossa personalidade, o que somos, mesmo que, com a adolescência, as coisas se confundam e corram o risco de se perderem para sempre, normalmente após os 20 anos, toda aquela experiência de vida dos primeiros anos retorna, definindo de vez nossa existência e personalidade.

 Cuidem de suas crianças, alimentem suas mentes, plantem os valores que lhe são corretos nos primeiros anos, pois estes serão lembrados até o fim de suas vidas.
...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Rock no Brasil e suas contradições



 Ramones seguirá sendo estampa de moda do público que vai no show de sertanejo? Moicano será ainda o corte de cabelo preferido dos pagodeiros? Os "hard rockers" seguirão tão reaças quanto os exemplares roqueiros Lobão e Roger do Ultraje a Rigor, que mais parecem uns velhos escravagistas do século 19? A caretice seguirá imperando no meio roqueiro do braziu?
O emo foi o último movimento roqueiro? Haverão outros? As pessoas saberão os nomes das músicas que ouvem nos próximos anos? Ou o Youtube se encarregará de providenciar o contingente musical pra sempre? Alguém ouve um álbum inteiro ainda hoje? Qual será o porcentagem dessa gente "estranha" que faz isso?
Confuso. O futuro, como sempre, é assustador.
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 No Brasil, ou Braziu iu iu ... o mesmo onde os cristãos deste país dizem "Amai o próximo como a ti mesmo", mas que pedem pena de morte. Que abominam os traficantes, mas votam no Aécio Neves, que protestam, quebram tudo, se o seu time cai pra segunda divisão, ou sua escola de samba, mas se a luz sobe 55%, ou a passagem de ônibus sobe, ou a exposição da máfia das empreiteiras junto aos meios de comunicação e políticos, ou então quando os deputados sobem o próprio salário e roubam escancaradamente, não fazem nada, declarando apenas que não adianta fazer nada. Que acham lindo a bandeira verde e amarela e se dizem nacionalistas quando rola Copa do Mundo, mas ostentam a bandeira estadunidense nas roupas e acham que lá é tudo melhor, Miami chic, Nova York o must, Disney fun, incorporando tudo quanto é palavra idiota em inglês no vocabulário, e acham que os argentinos, paraguaios, cubanos e os demais latinos são "tudo vagabundo", dignos de desconfiança, pois acham que não são latinos como eles, desdenhando talvez o picolé da esquina, mas se for um importado, uma paleta mexicana, pagam bem por isso . Que vão no verão para as praias do nordeste, mas pedem separação do país quando o seu partido político perde as eleições. Que pagam 500 reais para assistir um show de gringo e não pagam 10 pra ver uma banda autoral local, etc, etc. EU TENHO VERGONHA DE SER BRASILEIRO. O Brasil é lindo, a música, as manifestações artísticas, mas que no entanto, apenas uma parcela pratica e valoriza essas coisas boas. Esse é o BRAZIU, uma cópia xerocada, genérica, do pensamento, da ignorância, dos preconceitos, de algumas coisas boas, como a música e outros exemplos artísticos, não neguemos, mas principalmente das coisas ruins, idiotas, imbecis dos Estados Unidos, cultura plantada depois da 2ª Guerra Mundial até hoje pelos meios de comunicação em geral. Braziu, aqui escrito errado porque é isso o que é, um erro, uma puta explorada que acha que o cafetão lhe faz um favor em lhe comer a bunda e ainda cobrar por isso.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Liberte-se

 Sou ateu, com viés político de esquerda, possuidor de fraquezas e talentos comuns à toda a raça humana. Minha religião é a música, a literatura, a arte, de onde tiro inspiração, exemplos, conforto, além dos amigos e família. Quem precisa acreditar numa fantasia mágica como se fosse real é fraco, presunçoso, egoísta também, pois há quem faça o bem apenas pela recompensa no seu paraíso imaginário. Deus e deuses não existem. Existiram e existem sim grandes pensadores, grandes humanos, heróis, que deixaram legados indispensáveis na construção da sociedade e da consciência humana. Adorá-los como fantásticos e sagrados seres sobre-humanos é estúpido e inútil. A fé e a esperança podem fazer bem, mas é apenas uma ilusão, e a decepção é a consequência natural de uma esperança sem uma atitude.
 Psicotrópicos foram muito usados em rituais religiosos no passado, o que causou mais veemência na crença de muitas coisas absurdas. O Islamismo, o Judaísmo e o Cristianismo são as piores religiões que se tem notícia atualmente, pregam o ódio, o preconceito, o terror, isso durante milhares de anos, matam mais que fome. Se o deus que pregam existisse realmente, essa figura cruel e ditatorial, ser satanista parece ser uma opção bastante razoável.
 Respeito você, crente, mas chega de assistir calado ao constante emburrecimento da sociedade. Já foi muito pior, hoje temos informação de fácil acesso, mas ainda não foi resolvido o problema. A corrupção do povo e da política está intimamente ligada a cultura e a educação deste povo. Onde mais a religião age desmedidamente é onde há mais ignorância e, quanto mais burro e ignorante, melhor pros políticos, pra mídia, pros barões da economia e pros religiosos pregadores.
Liberte sua consciência, mesmo que o capitalismo não permita uma liberdade plena, liberte-se.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Tolkien e os cem anos da magia da Terra Média

 No ano do centenário dos primeiros registros em que J. R. R. Tolkien começa a esboçar os manuscritos de sua grande mitologia, também chega aos cinemas o terceiro e conclusivo capítulo de O Hobbit, A Batalha dos Cinco Exércitos, tonificando ainda mais a popularidade da obra deste épico escritor, adentrando no século XXI de maneira revigorada .
 Recentemente, o jornal inglês The Guardian publicou uma extensa e rica matéria sobre o pontapé inicial de toda a mitologia de Tolkien, um poema datado de 1914 em que o então jovem escritor concebe a gênese de sua literatura, intitulado A Viagem de Éarendel, A Estrela Vespertina, onde o autor descreve um marinheiro imaculado que sobe aos céus com sua nau, transformando-se em uma estrela, explicando de maneira mágica o surgimento da Estrela D’Alva, também chamada Estrela Vespertina. Segue abaixo uma parte do poema original e a tradução do site brasileiro Valinor:


Éarendel sprang up from the Ocean’s cup
In the gloom of the mid-world’s rim;
From the door of Night as a ray of light
Leapt over the twilight brim,
And launching his bark like a silver spark
From the golden-fading sand;
Down the sunlit breath of Day’s fiery Death
He sped from Westerland.

Éarendel ascendeu-se sobre a beira do Oceano
Na escura borda do limiar do mundo;
Pela Porta da Noite como um facho de luz
Avançou pela orla do crepúsculo,
E lançando sua barca como um brilho de prata
Da dourada e desvanecida areia;
Desceu pelo ar da flamejante morte do dia
Ele partiu das Terras do Oeste.

 Com clara influência da poesia de Percy Shelley, e muitas referências da cultura nórdica e celta, o jovem Tolkien a partir daí criou o mundo épico que veio influenciar tantos escritores, cineastas e músicos nos próximos cem anos. Já nessa primeira obra, ele demonstra a intenção de explicar fenômenos naturais através de histórias mágicas, pois o movimento que a nau de Eärendil executa no céu, como é retratado mais tarde no livro O Silmarillion, representa o movimento do planeta Vênus, que é chamado também de Estrela Vespertina, assim como o faz com o surgimento do sol, da lua, das demais estrelas, dos mares e de quase tudo o que existe na terra, chamada de Arda em sua criação, desde o seu surgimento, a origem da vida de seus habitantes, além do relato das guerras através das eras; de grandes feitos de personagens e suas histórias, até o fim da Guerra do Anel e o início da Quarta Era.
J. R. R. Tolkien no exército/WEB
 Até então, era comum entre os leitores conceber como marco inicial da mitologia o livro O Hobbit, primeira publicação de seu autor, datada de 1937, no entanto, a descoberta desse manuscrito de 1914 remete e comprova a origem de tudo, em meio ao iminente terror da Primeira Guerra Mundial que estourava, quando então o jovem acadêmico alista-se no exército, ainda recém aperfeiçoando seus estudos filológicos e as inquietações de sua mente criativa. Também no prefácio da publicação póstuma que foi o livro O Silmarillion, editado e organizado por seu filho Christopher Tolkien e lançado quatro anos após a sua morte em 1977, este retrata o quão antigos são os registros que compõe essa obra, que remontam a 1917, em meio às dificuldades em que foram concebidos, pois então o jovem tenente e escritor se encontrava nas trincheiras da guerra. “Na realidade, embora na época não se chamasse O Silmarillion, ele já existia meio século atrás, em cadernos velhíssimos podem ser lidas as versões iniciais das histórias mais importantes da mitologia, muitas vezes escritas às pressas, a lápis”, escreve Christopher então no prefácio do livro, ainda salientando que, mesmo que não houvesse o publicado em vida, seu pai nunca o abandonara, pois sempre mantinha a sua atenção na obra, também devida a grande dificuldade de organização e coerência que deveria ser mantida em referência à publicação que, nos anos 70, fora um sucesso estrondoso, mesmo tendo sido lançado 20 anos antes, rendendo finalmente renome internacional ao grande escritor, a trilogia O Senhor dos Anéis, onde há muitas indicações de fatos e histórias que depois foram organizadas e retratadas de maneira detalhada em O Silmarillion. Seu pai ainda deixou um vasto material inédito, que desde a sua morte, Christopher vem editando e lançando aos poucos. Um destes é a compilação de contos chamada Contos Inacabados lançado em 1980, que abrange grandes histórias entre as três eras de Arda, dentre outras obras que não se limitam a mitologia da Terra Média.
Contos Inacabados da editora
brasileira Martins Fontes/Capa John Howe

                                                                         
                                                                            Música


 Foram muitos os artistas que se influenciaram pela obra de Tolkien nos idos dos anos 70. Músicos como o grupo de rock inglês Led Zeppelin foi um destes, além de inúmeras outras bandas desse período que, por adotar uma característica mágica, onde magos, hobbits e anões fumam seus cachimbos, também as inúmeras referências ao folclore europeu; o visual descrito das paisagens e personagens, um senso de liberdade nômade que emergia da história, além da bela poesia que complementa a prosa da obra, a partir do final dos anos 60, a geração hippie se identifica com todo o mundo mágico, místico e heroico da saga na Terra Média criada por Tolkien e que germinou frutos em distintos artistas em suas respectivas áreas do entretenimento e da cultura mundial.
 Segue abaixo trecho da música Misty Mountain Hop da banda Led Zeppelin, onde além do título, que refere-se às Montanhas Nevoentas na tradução brasileira, trata claro da realidade dos jovens da geração daquele período:


So I've decided what I'm gonna do now
So I'm packing my bags for the Misty Mountains
Where the spirits go now
Over the hills where the spirits fly


Numa tradução livre ficaria:

Então eu decidi o que vou fazer agora
Então estou fazendo minhas malas para as Montanhas Nevoentas
Para onde os espíritos se vão agora
Sobre as colinas onde os espíritos voam


E segue o link da faixa:





 A referência nesta faixa é bastante sutil, apesar do título ser direto, porém há outras músicas do grupo que também fazem referência a obra de Tolkien. Talvez a mais evidente seja a faixa The Battle of Evermore, uma canção folk com uma harmonia tradicional e que tem toda a sua letra inspirada no romance O Senhor dos Anéis. Segue um trecho da mesma:


Queen of light took her bow
And then she turned to go
The prince of peace embraced the gloom
And walked the night alone

Oh, dance in the dark of night
Sing to the morning light
The dark lord rides in force tonight
And time will tell us all


Na tradução livre:

A Rainha da luz pegou seu arco
E então voltou-se para partir
O Príncipe da Paz abraçou a melancolia
E caminhou sozinho à noite

Oh, dance na escuridão da noite
Cante para a luz do amanhecer
O Senhor escuro cavalga em vigor esta noite
E o tempo nos contará tudo



 Abaixo o link da faixa:




 Mais tarde, já nos anos 90, a banda alemã de heavy metal Blind Guardian vai mais longe, gravando um álbum conceitual, todo inspirado na obra O Silmarillion, chamado Nightfall in Middle-Earth, lançado em 1998, retratando através de suas letras algumas passagens relacionadas a distintos capítulos do livro, de maneira livre, porém coerente, resultando numa obra admirável, desde a arte de sua capa, que ilustra o momento em que Lúthien e Beren, o primeiro casal oriundo da união das raças de homens e elfos, enfeitiçam o então primeiro senhor do escuro Morgoth e lhe roubam uma das três Silmarills, as gemas sagradas construídas por Feänor, e que outrora o próprio
Capa do disco Nightfall in Middle-Earth da banda Blind Guardian
Morgoth lhe roubara na terra de Aman do outro lado do mar... O disco não abrange todos os capítulos do livro, começando sua narrativa quando o senhor do escuro Melkor, também chamado Morgoth pelos elfos, é libertado de seu cativeiro na terra sagrada de Aman, cobiça e enfim rouba as três Silmarills de Feänor, fugindo para a Terra Média, sendo perseguido então pela legião de elfos da casa Noldor, liderados por Feänor, que buscam recuperar as joias custe o que custar. O disco desenvolve-se a partir daí cronologicamente, com algumas adaptações e interpretações idiossincráticas, mas de maneira bela, ricamente musical e coerente, onde consegue transmitir grande parte dos sofrimentos ocorridos nas infrutíferas guerras travadas na Primeira Era por elfos e homens contra Morgoth Bauglir, O Sinistro Inimigo, encerrando então sua narrativa no momento em que o senhor do trono escuro vence a quinta batalha intitulada Nirnaeth Arnoediad, que na língua sindarin, língua dos elfos cinzentos, significa Lágrimas Incontáveis, e retém em cativeiro Húrin, um dos grandes senhores dos clãs dos homens da região chamada Dór-Lómin, no norte da Terra Média. O livro ainda se estende por mais alguns capítulos, pois no disco todos os fatos remetem à Primeira Era do mudo, e no livro há ainda relatos da Segunda e da Terceira Era.
Abaixo o link da faixa Noldor (Dead Winter Reigns), onde a banda narra a sofrida travessia dos Noldors abandonados por Feänor, que tiveram que cruzar as gélidas regiões nortenhas entre a terra de Aman e a Terra Média, sem navios ou suprimentos para atravessar o mar, tal como fez Feänor e sua prole, na loucura de seu orgulho e arrogância pela busca das gemas, abandonando seus parentes. Uma das mais belas faixas deste disco:





 Há ainda inúmeras bandas de heavy metal cujas retiraram seus títulos da mitologia tolkieniana, são algumas delas: Gorgoroth, Amon Amarth, Cirith Ungol, Morgoth, Burzum, dentre muitas outras referências em músicas e discos de muitas outras bandas, na Europa e no resto do mundo, que a mitologia de Tolkien influencia desde os anos 50, mas que teve o seu auge popular nos anos 70. Todos estes títulos de bandas tratados aqui são originais dos idiomas criados por Tolkien na sua extensa obra.


                                                                            Literatura


 É notável o quanto J. R. R. Tolkien segue influenciando escritores bem posteriores à sua geração, assim como o fazem outros tantos escritores de literatura fantástica como ele, tais como Lewis Carrol, Bernard Cornwell, Geroge R. R. Martin e J. K. Rowling o fazem, fizeram e o farão enquanto a humanidade apreciar a arte da literatura épica e fantástica de altíssima qualidade. O grande escritor e roteirista criador das Crônicas de Gelo e Fogo, da qual é inteiramente baseada a série de TV Game of Thrones, da britânica HBO, admite ser um
Ilustração de Morgoth/WEB
grande fã de Tolkien, tendo relido várias vezes as suas obras, de onde tirou, dentre tantas outras referências históricas e culturais, inspiração para a concepção de seu grande romance, podendo hoje considerar que sua obra já superou em drama, em quantidade de detalhes de lugares e personagens, a grande mitologia de Tolkien, não obtendo talvez a mesma dimensão cronológica que O Silmarillion aborda em suas páginas, por exemplo, ou talvez não supere a poesia que tanto Tolkien esbanja em sua prosa, mas se sobressai sim nas questões sociológicas, na complexidade de seus personagens, no quão fiel à realidade medieval, à crueza do mundo, à barbárie da raça humana, às desgraças, aflições e amoralidade que compõe a história da sociedade humana desde sempre, sem definir fronteiras perenes entre heróis e vilões, fazendo com que seus leitores e tele-espectadores reflitam sobre suas próprias escolhas no mundo real, que tanto se parece com o mundo de As Crônicas de Gelo e Fogo, mesmo tendo seu enredo recheado de fantasia. Nesse caso, é possível dizer que sim, ao menos em muitos aspectos, o aprendiz superou o mestre.
 Em entrevista cedida à revista Rolling Stone, publicada em junho de 2014, George R. R. Martin responde sobre se ficou preocupado com possíveis comparações que sua obra poderia levantar com a obra de Tolkien. “Na verdade não fiquei preocupado. A partir dos anos 1970, os imitadores apenas retraçaram os mesmos caminhos que ele, sem nada da originalidade e do amor que Tolkien tinha pelos mitos e histórias. Mas eu sempre fui considerado, pelo menos dentro do gênero, um escritor sério. Além disso, a história me pegou de uma maneira muito forte. Achei que meus livros podiam ter o tom cru e sujo da ficção histórica misturado a um pouco da magia e do fascínio da fantasia épica”, declara Martin à revista Rolling Stone. Também fala sobre a extrema violência das suas obras, contrastando com sua personalidade agradável, de acordo com a revista, respondendo se isso gera algum conflito sobre suas visões sobre poder e guerra. “A guerra descrita por Tolkien era pelo destino da civilização e pelo futuro da humanidade, e isso virou o padrão. Não tenho certeza se é um bom padrão, entretanto. O modelo de Tolkien levou gerações de escritores de fantasia a produzirem uma série infinita de lordes malignos e seus terríveis exércitos, todos sempre feios e vestidos de preto. Mas a vasta maioria das guerras através da história não foi assim. A Primeira Guerra Mundial representa um exemplo muito mais típico de guerra do que a Segunda – o tipo em que você olha depois e diz: Por que diabos estávamos lutando? Há apenas um punhado de guerras que realmente valeram o preço pago”, declara Martin à Rolling Stone, e continua. “Nasci só três anos depois do fim da Segunda Guerra. Você quer ser herói. Quer fazer algo, seja o Homem-Aranha lutando contra o Duende Verde, seja o norte-americano salvando o mundo dos nazistas. É triste dizer, mas acho que vale a pena lutar por algumas coisas. Os homens ainda são capazes de grande heroísmo. Mas eu não acho que sejam necessariamente heróis. Isso é algo que aparece bem nos meus livros: acredito em grandes personagens. Somos todos capazes de coisas boas e más. Temos anjos e demônios dentro de nós, e nossa vida é uma sucessão de escolhas” declara o grande escritor George R. R. Martin, que talvez não tivesse criado nada parecido com As Crônicas de Gelo e Fogo se não fosse o legado deixado pelas obras de Sir John Ronald Reuel Tolkien. 

Feänor enfrenta Gothmog, o senhor dos balrogs de Morgoth/Bob Greyvenstein


                                                                            Cinema


 A grande popularidade que o escritor esbanjou nos idos dos anos 70 foi restaurada com força no começo do século XXI, pois então o diretor Peter Jackson decide apostar no romance épico, adaptado para as telas de cinema de maneira ousada. O que poderia ter sido um grande risco e um grande fracasso se mostrou na verdade um tremendo sucesso, arrebatando uma legião de novos fãs à literatura, desencadeando uma cultura popular e participativa nunca antes vista pelos remanescentes da família Tolkien, parecida com o que há também em relação às sagas Star Wars e Harry Potter, com inúmeros fóruns de estudos e discussões sobre a obra no vasto mundo da internet, e que até hoje, mesmo
A Sociedade do Anel/WEB
com todo esse sucesso, a família Tolkien não vê com bons olhos toda essa dimensão que o resultado da experiência cinematográfica atingiu, também porque financeiramente não lhes rendem tanto quanto aos estúdios associados de Hollywood, especialmente a empresa New Line Cinema, dona de uma grande fatia dos direitos. “Eles arrancaram as vísceras do livro, tornando-o um filme de ação para jovens entre 15 e 25 anos”, declara Christopher Tolkien ao jornal francês Le Monde. “E parece que O Hobbit será o mesmo tipo de filme”, afirma ele antes do lançamento da nova trilogia, sem esperanças em relação à sequência que estava por vir. “Tolkien tornou-se um monstro, devorado por sua própria popularidade e absorvido pelo absurdo da nossa época”, observa Christopher. “Ampliou o abismo entre a beleza e a seriedade do trabalho, e o que ele se tornou. E já foi longe demais para mim. A comercialização reduziu o impacto estético e filosófico da obra a nada. Há apenas uma solução para mim: Virar meu rosto para outro lado”, declara com certa tristeza para o Le Monde, ele que é o terceiro dos quatro filhos do escritor, sendo ele e sua irmã Priscilla Tolkien os últimos filhos sobreviventes, atuando então como executor testamentário de seu pai e diretor geral da Tolkien Estate, empresa que gerencia e distribui os royalties de direitos autorais para os herdeiros da família.
 Mesmo em meio a toda essa divergência, gerada entre os produtores dos filmes, dos jogos e demais artigos vinculados à mitologia de Tolkien, com os remanescentes de sua família, é notável a inclusão que esses artigos fazem, cada vez mais, de novos leitores entusiastas na sua literatura, sendo impossível também negar a qualidade dos filmes em seu formato, mesmo que estes se apeguem mais ao visual, ao som e a ação, do que com a filosofia e a poesia da obra literária. Muitos dessa geração tão somente conheceram o trabalho do escritor através da trilogia O Senhor dos Anéis para o cinema, o que desencadeou uma nova febre, que por sua vez, incomoda Christopher e sua família, já que também é notável a intromissão e aborrecimentos que muitos destes fãs geram a seus criadores, tal como acontece com George R. R. Martin e J. K. Rowling, mas que rendeu um renome ainda mais vasto ao legado de seu pai, e que não tão cedo será esquecido.
O dragão Smaug ataca Esgaroth/John Howe 
 Em ambas as trilogias dirigidas por Peter Jackson, O Hobbit e O Senhor dos Anéis, os recursos digitais para a caracterização das personagens e cenas de ação são abundantes, mas não chegam a prejudicar o curso do filme em si, mesmo que em ambas as trilogias, a quantidade de alterações feitas pelo diretor é excessiva. A omissão de personagens por ora importantes; a criação de outras, inexistentes nos livros, também cenas e fatos que, por uma questão obviamente de tempo, são omitidas na história dos filmes, ainda que não agridam demasiadamente o curso geral da saga. Contudo, muitas são as discrepâncias, o que é natural em uma adaptação cinematográfica, pois o fã mais atento deve considerar o filme como uma obra independente em si, pois é impossível a total fidelidade nos mais variados aspectos de uma obra literária adaptada para o cinema, no entanto, é possível apontar como graves algumas das alterações feitas, pois há a nítida “invenção” de fatos e acontecimentos que, em nenhum momento, são sugeridos nos livros, o que enfraquece o caráter das personagens, dando um apelo extremamente comercial a inúmeras partes do enredo, como por exemplo, quando Gollum joga fora o suprimento de lembas, o pão élfico de viagem, nos altos das Montanhas da Sombra, acusando Sam de ter os comido sozinho. Isso não acontece nos livros, e tal fato corrompe a personalidade de Frodo, que fica do lado de Gollum e que nas telas se mostra um indivíduo fraco, mas que nos livros apresenta muito mais virtudes como um hobbit diferenciado que era.
 Visualmente, os filmes cumprem muito bem os seus papéis, tanto os cenários, onde a maioria das locações foi feita na Nova Zelândia, país de origem do diretor, quanto na caracterização de figurinos e aparência das personagens, é notável o resultado positivo. Desde os orcs, názguls, elfos e demais criaturas da Terra Média, quanto as personalidades distintas e o aspecto repugnante da criatura Gollum, que outrora na história era conhecido como Sméagol, são bastante convincentes, sendo fiéis a intenção descritiva do autor em suas páginas. Claro que, desde os anos 70, são inúmeras as ilustrações baseadas na obra de Tolkien, o que facilitou a concepção para os filmes, e ainda por contar também com a colaboração na produção visual do desenhista John Howe, responsável pelas mais famosas ilustrações da mitologia tolkieniana, que ilustram várias edições de seus livros pelo mundo.
 O Hobbit, por ser a trilogia mais recente, conta com mais recursos digitais do que seu antecessor, no entanto, não o supera em nenhum aspecto, tendo no seu segundo volume A Desolação de Smaug o pior resultado entre os seis filmes. Há ainda o fato de o livro ser publicado em um volume único, mais simples e menor que O Senhor dos Anéis, porém rendendo também três filmes de duração quase igual a este, por isso, há inúmeras cenas desnecessárias e apelativas, mas que mesmo assim, é possível dizer que fez jus a fama e a qualidade da trilogia que o antecedeu, tendo na sua conclusão, o título A Batalha dos Cinco Exércitos, um ótimo encerramento com muita ação do começo ao fim, principalmente para aqueles que optam pela exibição em 3D nas salas de cinema, o que rende momentos eufóricos durante a sessão, deslumbrando voos rasantes do grande dragão Smaug em meio à cidade de Esgaroth em chamas, além das batalhas entre os exércitos de orcs, elfos, anões, homens e águias na cidade de Valle, em frente à Montanha Solitária, rendendo, ao menos visualmente, uma ótima experiência para os fãs das adaptações para o cinema, e também para os fãs de filmes de ação e fantasia em geral. Em suma, os filmes em si obtiveram êxito em muitos aspectos, no entanto, o drama das personagens e suas raízes são desvalorizadas. Muito pouco da essência verdadeira da obra nos livros é capturado nas telas.
Samwise e Frodo na versão cinematográfica


                                                                            Filosofia


 O que fica claro nas adaptações para o cinema da obra literária de Tolkien, e que seu filho Christopher ressalta, é a leviandade que a história assume a partir de então, deixando algumas personalidades bastante inverossímeis, pois perde-se o conteúdo e a ideologia que os acompanha no decorrer da saga, e que no filme, também por questões de tempo e também comerciais, são negligenciadas, além claro de toda a poesia que acompanha a prosa do autor.
 O duro destino cruel que viveram os antepassados de Aragorn, o peso que este carrega nas costas, descobrindo sua herança e descendência apenas na maioridade; os conflitos que sofre, principalmente quando após a queda de Gandalf, quando a Sociedade se separa e Boromir é morto,
Capa da primeira edição de O Hobbit idealizada por Tolkien
toda a trajetória penosa que enfrentou após abandonar Valfenda e seu amor por Arwen Undómiel, comparável apenas ao amor entre Beren e Lúthien e entre Tuor e Idril Celebrindal, ambos os casais oriundos da junção entre elfos e homens, e que desde a Primeira Era, então há mais de seis mil anos atrás, não acontecia, dentre outros tantos dilemas que Aragorn enfrenta em sua jornada e que nos filmes não são valorizados, pois nem de longe conseguem captar e transmitir o intenso drama travado por essa personagem nos livros . Há ainda a astúcia e sabedoria de Gandalf, que ressalta que “quando os sábios tropeçam, a ajuda costuma vir da mão dos mais fracos”, como relata em uma breve passagem ao fim de O Silmarillion. Nos filmes há indícios dessa filosofia de Tolkien, de que nas mais simples formas de vida, no cotidiano de gente humilde e comum, também moram grandes corações; de onde grandes atos de bravura podem surgir nos momentos mais inesperados e desesperadores.
 E também há ainda, além de muitos outros pontos possíveis de destaque nos livros, a bravura de Samwise Gamgee, que nos filmes se mostra um jardineiro simples e bondoso, como grande parte da população do Condado, mas que se revela um verdadeiro herói na conclusão da saga, pois mesmo que nos filmes a personagem seja encarada dessa maneira, nos livros os seus atos de bravura sobre a torre de Cirith Ungol, e além, junto do exército de orcs em Mordor, deprimentemente disfarçados, famintos e cansados, e depois na Montanha da Perdição, tudo isto no cinema não é retratado à altura, ao menos psicologicamente, da verdadeira superação em que o jovem hobbit atinge no desenrolar dos capítulos conclusivos do terceiro volume intitulado O Retorno do Rei. Uma história de superação extrema, atingida apenas e unicamente pela coragem desmedida de Sam, pois nada mais lhe restava além disso, fazendo com que a emoção, ao menos a este que vos escreve, atinja o seu auge no capítulo chamado O Campo de Cormallen, em que os hobbits, Sam e Frodo, são reverenciados na região de Ithilien pelo exército do oeste, após as semanas de recuperação depois de terem destruído finalmente o Um Anel, onde Aragorn, agora chamado rei Elessar, junto de Gandalf, Legolas, Gimli, Éomer, o príncipe Imrahil de Dol Amroth, os filhos de Elrond, os dúnedain nômades do norte, e todo o exército atrás destes, em uníssono, os reverenciam emocionados, gritando nos idiomas sindarin e quenya as seguintes palavras:


Cuio i pheriain Annan! Aglar’ni Pheriannath!
Daur a Berhael, Connin en Annûn!
Eglerio! Eglerio!
A laita te, laita te! Andave laituvalmet!
Cormacolindor, a laita tárienna!

Que na tradução significa:

Vida longa aos pequenos! Louvai-vos com grande louvor!
Louvai-vos com grande louvor, Frodo e Samwise!
Louvai-vos! Louvai-vos!
Os Portadores do Anel, louvai-vos com grande louvor!


 E ainda no poema recitado por Bilbo Bolseiro em Valfenda, em meio à reunião do Conselho de Elrond, onde é formada a Sociedade do Anel, quando Aragorn é questionado por Boromir, que duvidava de sua descendência númenoriana:


Nem tudo que é ouro fulgura
Nem todo o vagante é vadio
O velho que é forte perdura
Raiz funda não sofre o frio


Das cinzas um fogo há de vir
Das sombras a luz vai jorrar
A espada há de, nova, luzir
O sem-coroa há de reinar





Fontes na internet: www.valinor.com.br, www.wikipedia.org


http://whiplash.net/materias/biografias/188914-blindguardian.html


http://rollingstone.uol.com.br/edicao/edicao-93/george-rr-martin-game-of-thrones-entrevista-rs#imagem0







domingo, 30 de novembro de 2014

Paradesporto: O esporte que dá sentido à vida


Não importa se ganha ou se perde, todos são guerreiros e vitoriosos 
O exemplo dessa gente determinada que comove e emociona



 Em Porto Alegre, em meio à Copa do Mundo e a tantos protestos e manifestações que ocupam redes sociais e as pautas de debates cotidianos, alheios a isso, existe uma associação que atua na inclusão de crianças, jovens e adultos através do esporte na sociedade. Essa associação chama-se RS Paradesporto.
Luiz Portinho, presidente da RS Paradesporto
Foto: Jo Reis


 Com um trabalho social importantíssimo, a organização atua há dez anos na formação de atletas que competem, muitas vezes, em torneios, copas e campeonatos internacionais, em diversas modalidades, mas que não aparecem tanto nos meios massivos de comunicação, tendo então que agir e divulgar o seu trabalho por suas próprias mãos, tal como o fazem no site www.rsparadesporto.org.br, além do canal no youtube Paradesporto TV. A associação trabalha com esportes como o basquete, a natação, o atletismo, o futebol, o rúgbi, entre outros. Também há seis anos desenvolve um projeto voltado a crianças com deficiência, realizando ainda, além das modalidades esportivas, aulas de dança contemporânea com essas crianças, aulas estas que são apoiadas pela Secretaria de Cultura do município. “No início desse trabalho voltado às crianças, contávamos com o apoio voluntariado dos próprios associados, além da participação em editais, na tentativa de captar verbas para um melhor desenvolvimento do projeto”, declara Luiz Portinho, presidente da associação RS Paradesporto. “Hoje, para esse projeto específico junto a crianças deficientes, contamos com o apoio do Criança Esperança, que nos apoia desde 2013 e que se tornou fundamental para o andamento do projeto, podendo hoje contratar diversos profissionais, tais como secretárias, estagiários, técnicos de enfermagem, entre outros, além de mais professores, atuando todos então juntos à associação”, afirma Portinho. Segundo ele também, graças a esse apoio financeiro do Criança Esperança, é possível hoje disponibilizar materiais diversos para as aulas, disponibilizar transporte, além de ampliar de forma significativa o trabalho, que era feito com aproximadamente 15 crianças e que hoje trabalha com 60.
Luiz Portinho junto de alguns alunos e funcionários da RS Paradesporto
Foto: Jo Reis
  Além das dificuldades corriqueiras dos espaços para o desenvolvimento das atividades e das dificuldades financeiras, há também o preconceito da sociedade, a ignorância sobre o assunto, sobre as diferentes e inúmeras necessidades especiais que cada indivíduo possui, existe também ainda o preconceito do próprio deficiente. “Às vezes tem o cara que, mesmo na cadeira de rodas, com uma deficiência bastante explícita, se nega a participar ou ser incluído no projeto, alegando que não é como a gente”, explica Luiz Portinho, deixando claro que há uma resistência preconceituosa por parte de alguns portadores de deficiência, por não se considerarem eles mesmos deficientes, por associarem isso de forma pejorativa. “Enquanto muitos se empolgam com o nosso convite para conhecer a associação, muitos nem ao menos se reconhecem como deficientes, e isso dificulta bastante a nossa tentativa de inclusão perante a sociedade, já que há preconceitos que partem dos próprios portadores de necessidades especiais”, afirma Portinho, porém ele considera que hoje, graças ao esporte paralímpico, este preconceito amenizou-se, pois no passado essa perspectiva preconceituosa, oriunda da falta de conhecimento, era mais presente do que nos dias atuais. “Ainda hoje existe o paradigma das pessoas deficientes serem consideradas doentes e incapazes, tanto por empresas que contratam apenas pela obrigação de cumprir suas cotas, quanto ainda por outras ONGs e associações, que tratam os atletas e alunos como pacientes”, declara Luiz Portinho. “Temos como objetivo dar autonomia aos nossos alunos, a viver de forma independente na sociedade, a cair e levantar como uma pessoa comum. Paciente é doente, e não somos doentes, somos portadores de necessidades especiais, e podemos atuar no mercado de trabalho como qualquer pessoa”, afirma Luiz Portinho.
Treino da equipe de basquete
Foto: Arquivo RS Paradesporto

  

 Recentemente, no sábado dia 22 de novembro, a equipe de basquete da RS Paradesporto, que também faz parte da Confederação Brasileira de Basquete em Cadeira de Rodas, foi vice-campeã estadual na copa que reúne todas as equipes de basquete paralímpico do estado. A associação já formou atletas paralímpicos profissionais, que disputam competições internacionais, além do trabalho voltado à inclusão social e a capacitação psicológica e profissional, através da autoestima que o esporte dá às crianças e demais alunos da associação. 



sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Os Homens do Triângulo Rosa

 O espetáculo Os Homens do Triângulo Rosa, do grupo Cia. Teatro ao Quadrado apresenta uma obra que vem de encontro a uma questão pouco conhecida do público sobre o holocausto, a perseguição aos homossexuais alemães do período nazista, tema considerado tabu até os dias de hoje. De maneira impactante, ele aborda o tema e sugere a reflexão sobre essa intolerância aos homo afetivos que, ainda hoje, é vista por muitos como uma aberração.
Flyer Divulgação
 Com uma trilha sonora executada ao vivo, no estilo dos velhos cabarés, outrora muito populares na capital alemã, a peça desenrola as relações amorosas de uma personagem conflitada entre a vida boêmia que levava com seu companheiro bailarino, sua conturbada relação familiar, até a prisão e confinamento nos campos de concentração nazistas. Uma vida que passa do glamour à marginalidade em instantes.
 No enredo, que é uma adaptação da obra Bent, de Martin Sherman, mesmo com a ascensão do partido nazista liderada por Adolf Hitler, os cidadãos alemães que se identificavam como homossexuais, ou apenas simpatizantes, gozavam ainda em meados da década de 30 alguma tranquilidade em relação às perseguições étnicas que já ocorriam no território alemão, pois o braço direito do Führer, o oficial Ernst Röhm, líder das SA, até então era conhecidamente homossexual, o que garantia uma mínima proteção àquelas pessoas, no entanto, no ano de 1934, na noite conhecida como Noite das Facas Longas, a caçada aos homossexuais foi iniciada, quando dezenas de membros do partido nazista foram mortos, inclusive Röhm, de quem cujo próprio Führer temia um golpe militar, desencadeando então a partir dessa retomada a unificação das polícias alemãs e a perseguição oficial a judeus, comunistas, ciganos, deficientes e, portanto, aos homossexuais.
Foto: Luciane Pires/Divulgação
 Enquadrados então como aberrações de mais baixo escalão, inclusive entre os próprios presos do regime nazista, os homens identificados como homossexuais carregavam em seus uniformes o tecido na forma de triângulo, de cor rosa, cujo simbolizava então a sua condição e sua diferenciação entre os demais presos. A trama aborda a dor e o sofrimento sofridos por esses homens que, assim como outros grupos perseguidos, infringiam a lei nazista apenas por existirem, por demonstrarem carinho e afeto, mesmo que entre os próprios oficiais houvesse também homossexuais, pois na sua hipocrisia, a raça ariana era imune a tais degenerações.
 São aproximadamente duas horas de espetáculo, das quais grande parte se passa dentro do campo de concentração nazista de Buchenwald, onde as dores e as transformações provocadas pela agonia vivida pela personagem principal Max (Marcelo Ádams) acontecem.


Foto: Luciane Pires/Divulgação

 Com cenas impactantes de execuções e humilhações desempenhadas pelos oficiais nazistas, atuações soberbas de um elenco admirável, também com momentos por ora leves e descontraídos, porém seguidos de angústia e de dor, o espetáculo foca no ser humano, na melancolia de uma vida aprisionada, mas também evidencia um sentimento tão comum, tão presente desde os primórdios da raça humana, o amor, mostra que, mesmo com os corpos imóveis, mesmo aprisionados, mesmo na dor e no cansaço, a mente sã não pode ser aprisionada e que, no fundo da imaginação, é possível tocar, acariciar e gozar os prazeres da paixão, que correntes, grades e uniformes não são capazes de trancafiar o desejo, e ainda conclui nos obrigando a refletir sobre a intolerância, o preconceito, provando a todos os espectadores que, mesmo um homem nazista, um homem judeu ou um homossexual, todos sofremos e amamos. No fim, todos somos iguais.
Foto: Luciane Pires/Divulgação


O espetáculo segue até o dia 16 de novembro no Teatro Renascença, sextas e sábados às 20 horas e domingos às 18 horas.





Ficha Técnica:

Direção: Margarida Peixoto
Dramaturgia: adaptação das obras literárias Bent, de Martin Sherman; Triângulo rosa: um homossexual no campo de concentração nazista, de Jean-Luc Schwab e Rudolf Brazda; e Eu, Pierre Seel, deportado homossexual, de Pierre Seel
Elenco: Marcelo Ádams, Frederico Vasques, Gustavo Susin, Gisela Habeyche, Alex Limberger, Pedro Delgado e Edgar Rosa
Instrumentista: Elda Pires
Figurinos: Antônio Rabadan
Cenografia: Yara Balboni
Trilha Sonora: Marcelo Ádams (Letras) Sobre Música de Kurt Weill
Iluminação: Maurício Moura
Maquiagem: Margarida Peixoto
Preparação Corporal: Angela Spiazzi
Produção: Cia Teatro Ao Quadrado
Assessoria de Imprensa: Adriana Lampert
Fotografia: Luciane Pires Ferreira
Programação Visual: Maria Eugênia Jucá
Realização: Prêmio Myriam Muniz De Teatro 2013 – Funarte – Ministério da Cultura