terça-feira, 14 de abril de 2015

Por que Muse?






 É prática comum no rock e suas vertentes o saudosismo, aquela expressão de que “naquele tempo” era assim ou assado. Isso muitas vezes se mostra de um conservadorismo assustador, lembrando muito os reacionários de outrora, que por sua vez, reprimiam o rock e sua cultura, da mesma forma que muitos hoje, ditos roqueiros, o fazem com outros gêneros mais vulgares de música ou com nomes do rock moderno, apontando inúmeros motivos; falhas, de forma preconceituosa.

 Fato é que, desde o fim dos anos 60, a expressão “o rock está morto” é dita por aqueles que veem na próxima geração uma “antítese” daquilo que eles mesmos consideravam sagrado no rock n’ roll, é típico de quem não aceita o moderno, o que possa vir, pois mesmo que hajam muitas críticas e falhas em qualquer movimento de vanguarda, sempre que há um grupo formando um novo comportamento cultural, é necessário uma análise séria para considerar se é um movimento legítimo e duradouro ou apenas mais uma moda efêmera da juventude. Lembremos que sempre fora assim, desde os anos 60, como dito, quando surgiram os grupos psicodélicos, os saudosistas das bandas de terno e franjinha diziam que “o rock morreu”, tal como a geração posterior à prog psicodélica dizia sobre esta, que o rock havia morrido, pois não existiam músicas com menos de 5 minutos nesse gênero, e assim através das décadas até hoje. A onda atual sempre é a antítese da anterior.

 Pois então, seriam os anos 00 uma antítese dos anos 90? Acredito que, parcialmente, sim. Os anos 90 se caracterizaram pelo grunge, tendo no Nirvana a principal referência, e no seu frontman o guru, o mártir dessa geração. Acredito ainda que o Nirvana foi a última banda a mudar de fato o mundo, não apenas na música, mas o comportamento cultural como um todo. Foram pouquíssimas as bandas que realizaram tal feito, acho que precisamente foram: Elvis Presley, The Beatles, The Rolling Stones, Led Zeppelin, Black Sabbath, David Bowie, Bob Marley, Sex Pistols, Michael Jackson e por fim o Nirvana (quase não há artistas negros nessa lista, pois, devido ao racismo histórico, um gênero musical apenas atinge extrema popularidade quando gravado por um branco, mesmo que esse tenha sido criado pela cultura negra, desde o jazz e o rhythm blues, com exceção de Bob Marley e Michael Jackson apenas, porém todos sabemos o caminho que este percorreu), talvez podendo agregar ainda à essa lista nomes como Beastie Boys e até o Sepultura, o primeiro por ter ligado o rap à cultura de
Clássico do Sepultura que ajudou a
moldar o metal nos anos 90
massa, e o segundo, por definir um estilo de metal, de visual e comportamento nos anos 90, claro que não sozinho, já que o Sepultura estava junto de outras bandas do início da década que afirmaram esse estilo, tais como: Pantera, Biohazard, Suicidal Tendencies, Body Count, Korn, Rage Against The Machine, entre outras, tendo no Faith No More umas das principais referências musicais, além da mescla de hard core, funk e thrash metal, misturado ainda muitas vezes ao rap, que definiu o metal dos anos 90, gênero que mais tarde seria denominado nu metal, porém essa turma está distante de praticar a mesma influência massiva causada pelo Nirvana no período, já que o heavy metal se tornou um gênero musical à parte. Se citamos esses nomes como vanguardistas dos anos 90 no metal, devemos citar Venom, Metallica, Judas Priest, Iron Maiden, Deep Purple, entre muitos outros que fizeram o mesmo nas décadas anteriores à de 90, se tornando referências, porém o Sepultura, além do Faith No More, apresentavam elementos diferenciados para a época, mas a mudança radical aconteceu de fato apenas com o Black Sabbath, se falarmos de heavy metal dentro do rock n’ roll, e neste, o último grande nome, a última revolução, foi definitivamente o Nirvana, apontando o estilo dos anos 90 e sua antítese genuína do produto cultural musical da década anterior.

 Lembro que nesta análise avalio uma mudança drástica na cultura em geral, e não apenas na musicalidade em si. Por musicalidade teríamos de citar Jimi Hendrix, Kraftwerk, Van Halen, entre muitos outros que revolucionaram instrumentos, técnicas e formas de gravação. E também não apenas a estética, pois aí teríamos o Kiss como grande mania dos anos 70, e também o gênero emo core que, mesmo oriundo dos anos 80, se caracterizou não pela sonoridade nos anos 00, mas apenas pelo apelo visual (também extraído dos anos 80), que se provou com o passar dos anos ser um movimento extremamente fugaz.

 Então, se os anos 90 se caracterizam pela sonoridade crua, distorcida, melancólica, agregado ainda ao metal cadenciado, funkeado, de longos dreads e inúmeras tatuagens, claro também pela ascensão definitiva do punk rock ao estrelato, com nomes como Green Day e The Offspring, o que esperar dos anos 00? Uma antítese explícita? Quase. Os anos 00 é uma década de nostalgia musical, pois os nomes que deram referência nesse período resgataram uma sonoridade bem mais antiga. No metal, não tivemos grandes inovações, talvez um pouco na banda Meshuggah, que apresenta um som de levadas rítmicas difíceis, também na banda Protest The Hero, que faz esse metal oriundo da influência dos anos 90 com suas modificações, se mostrando um nu metal muito melódico e progressivo, mas ambas sem apontar (por enquanto) um estilo reproduzido massivamente pelo mundo, mesmo que hajam subgêneros extraídos das misturas do nu metal com o emo core e outros estilos, tal como o denominado screamo, por exemplo, ainda assim se caracterizam por atingir nichos específicos de público, não apontando uma tendência cultural massiva, mas apenas características musicais particulares e um visual indefinido pelo gênero em si. Ainda temos as midiáticas Linkin Park, System of a Down e Limp Bizkit, que apenas adentraram a década de 00 reproduzindo um estilo iniciado nos anos 90, tal como o Slipknot, que apresentou uma estética bastante inovadora para a época, mas que já havia sido explorada por nomes como o do Kiss, já citado aqui, além de David Bowie, Marilyn Manson, King Diamond e até Alice Cooper, entre muitas outras, onde os artistas se apresentam como personagens de suas obras, incorporando máscaras e figurinos distintos. Uma novidade nesse sentido foi recentemente o surgimento da banda Ghost, que atingiu notório sucesso pelo visual explicitamente zombeteiro, com seu frontman incorporando uma versão satânica do papa católico, mas que musicalmente não apresentou nada excepcionalmente novo, a não serem as pitadas de canto gregoriano no seu metal/hard rock clássico. Também há a ascensão de bandas de características sinfônicas, mas em geral no metal, mais que em outros gêneros de rock, segue um saudosismo como nunca, tendo nos anos 80 e 90 as suas principais referências. Apesar de que aqui no Brasil, sabemos, as coisas demoram a chegar e acontecer, porém com o advento da internet hoje, isso já não é motivo de atrasos temporais em relação a um movimento cultural.

 Mas e no rock n’ roll em geral? Sim, também a nostalgia é visível. A principal banda que deu origem a um gênero, a um comportamento e estilo reproduzidos pelo mundo todo, foi o The Strokes. Dizendo assim, quase dá pra incluir naquela lista de nomes que mudaram o mundo, não? Sim, quase, a não ser pelo fato de que, genuinamente, o The Strokes não apresentou uma “moda” inédita, pois o estilo musical e visual eram novidades na década, mas ambos têm uma origem bem mais antiga (o
The Jam - ícone do punk mod nos anos 70
Nirvana também não inventou o grunge, já que o estilo existia desde meados dos anos 80, sendo este um tipo de punk rock próprio de Seattle e região, mas que fora apenas amplamente divulgado no mundo através do Nirvana, diferente, portanto, do The Strokes nesse sentido), bastando uma ligeira vista nas bandas dos anos 70 pós-progressivo; em geral as bandas inglesas e nova iorquinas de punk e new wave. Alguns exemplos são: Talking Heads, Ramones, The Jam, Television, The Clash, Blondie e até os próprios Lou Reed e Iggy Pop. A partir destas bandas setentistas, é possível notar de onde veio grande parte da sonoridade dos nomes do início de 00, além também das bandas inglesas dos anos 60 e o chamado pós punk anos 80. Pode-se dizer, portanto, que o som e tendências visuais que o The Strokes apresenta, vem da mistura das décadas de 60 e 70, ignorando o rock psicodélico e progressivo. A banda deu a cara, apontou o estilo, que muitos chamam de “mod” (tal como nos anos 60), às vezes também se confundindo com o termo indie, mas independente do nome da onda, o fato é que The Strokes foi massivamente acompanhado por inúmeras bandas, muitas delas realmente boas e dignas de representarem a década de 00, tais como: Kings of Leon, Arctic Monkeys, Arcade Fire, The Libertines, Jet, Alabama Shakes, The Killers, Franz Ferdinand, Peter, Bjorn and John, The Black Keys, The Subways e outras ainda mais antigas, mas que acabaram apanhando praticamente o mesmo público, como Belle & Sebastian e The White Stripes, cujas apresentam uma sonoridade e estética próprias, mas que acabaram conquistando espaço no caminho aberto pelo The Strokes. Além dessas bandas, ainda temos a referência explícita dos anos 80 na era pós 00, década esta que parecia morta e enterrada no período grunge, mas que voltou com força total, e não apenas musicalmente, mas no visual também. Artistas como: Two Door Cinema Club, Mika, Foster The People, Scissor Sisters e Fun abusam do ritmo, dos efeitos e do glamur dos anos 80, com algumas bandas ainda transitando entre todas as décadas em questão, como o The Killers, The Black Keys e Franz Ferdinand, também as bandas Snow Patrol, Kaiser Chiefs e Interpol, entre outras, por enquanto, menos expressivas, que fazem uma salada de timbres anos 70, ritmos anos 80 e visual meio 60 meio 80, algumas mais uma coisa, outras outra. No Brasil, há o rock gaúcho que apresenta características parecidas com as dessa turma, bandas oriundas ainda dos anos 80, focando mais nos elementos antigos, mas que
Os Cascaveletes - banda fundamental
do rock gaúcho, formada nos anos 80
impulsionaram uma moda, que foi se firmar mesmo somente a partir dos anos 00 com a aparição do fenômeno Los Hermanos, cujo desencadeou uma multidão de fãs e novas bandas neste estilo denominado indie, que por sua vez, ajudou a trazer uma nova geração de bandas, gaúchas e do resto do Brasil, fazendo esse som característico de timbres e visual antigo. Também as chamadas “rolingas” na Argentina que, desde os anos 90, reproduzem esse estilo mod, explicitamente inspirado nos Rolling Stones, daí o título do gênero. Viejas Locas e Ratones Paranoicos são exemplos de rolingas. Existem ainda alguns casos isolados nas décadas anteriores à de 00, algumas bandas que resgataram um estilo antigo, “fora de moda”, e que atingiram sucesso. Nos anos 90 tivemos o Oasis, que impulsionou uma pequena gama de novas bandas neste âmbito chamado britpop, que se assemelha ao estilo das bandas britânicas dos anos 60, mas que não representou um movimento massivo como o grunge no período, com poucas bandas sobreviventes, das quais algumas ainda exploraram outros estilos e propostas mais tarde. Temos como alguns exemplos o Blur, The Verve e o Supergrass. Há ainda outras bandas também enquadradas como britpop, mas que seguem tendências estéticas musicais bem diferentes, como Placebo, Coldplay e também o Radiohead. O termo então acabou por definir qualquer música pop de origem britânica, atingindo até o próprio Muse. Nos anos 80, houve nomes reconhecidos até hoje, que faziam sua música baseada também em referências dos anos 60 e até 50, tais como Stray Cats e Tom Petty and the Heartbreakers, entre outros, mas que se tornaram casos isolados em um mercado onde o heavy metal e o pop sintetizado e maquiado eram predominantes.

Mas e o Muse? Por que Muse? Agora lhes digo o porquê: 

 O Muse é o que há de mais moderno no rock hoje em dia em se tratando de todas essas musicalidades exploradas através das décadas em geral. A banda nutre sua música com referências modernas, diferentemente desses outros grupos atuais citados, referências oriundas dos anos 90 principalmente, nomes como Radiohead, The Smashing Pumpkins e a melancolia desta década, associada a efeitos de guitarra evidentemente retirados de Rage Against The Machine, cuja banda possui um dos guitarristas mais criativos e originais dos anos 90, Tom Morello, genialidade evidente também no trabalho seguinte do músico, o Audioslave. Nos primeiros discos da banda, Showbiz e Origin of Simetry, nota-se uma semente plantada, um embrião que tomará forma nos anos seguintes, pois esses discos apontam uma banda promissora, com qualidade, já na tenra idade que tinham, por volta dos 20 anos. Showbiz teve um reconhecimento razoável, pois a banda era criticada por soar muito parecida com o Radiohead, fato claro na bela faixa Unintended, no entanto, o disco seguinte, Origin of Simetry, apresenta uma amadurecimento nítido, tendo em composições como Plug in Baby o cerne exemplar do estilo que explorariam com perfeição mais tarde, além de contar com uma versão incrível de Feeling Good, clássico eternizado pela voz de Nina Simone. O Muse já mostra a quê veio nesses dois primeiros discos, pois mescla de forma sublime momentos de peso e efeitos nas guitarras típicos dos anos 90, com a melancolia harmônica, principalmente pela voz de Matthew Bellamy, e ainda com linhas de baixo que lembram o new wave dos anos 80 e, como se não bastasse, também já mostra sinais da presença da música erudita em suas composições.


 O jovem trio britânico mostra-se um fenômeno instrumental, ainda mais com o lançamento de Absolution, de 2003, cujo álbum definitivamente evidencia a sua qualidade técnica, tendo o vocalista e guitarrista se superando em faixas como Stockholm Syndrome, que possui um riff recheado de técnicas virtuosas, associado ainda ao seu vocal peculiar e aplicado, criando uma sonoridade nova, nem de perto explorada pelas outras bandas referenciais da década de 00 aqui citadas. O disco em si é uma revolução no rock do século XXI, se desenvolvendo dessa maneira, fazendo uso de recursos eletrônicos, sintetizadores e efeitos variados, com momentos de peso e vocais melancólicos, linhas de baixo precisas e características, e ainda com uma bateria que sabe se colocar nos momentos de calma e também nos momentos de frenesi, literalmente demonstrando alta qualidade de precisão e de porrada técnica o baterista Dominic Howard, ainda contando com arranjos de piano executados pelo cantor e guitarrista, fazendo uma mistura de elementos tão distintos que acabam criando uma identidade nova, como sempre ocorre. Mesmo em faixas como Time is Running Out, cuja possui o início marcado pelo baixo recheado de efeitos de Christopher Wolstenholme, que mais parece nos apresentar uma canção disco new wave dos anos 80, mas quando na verdade, se mostra uma faixa de refrão melodicamente emotivo, seguido de momentos de peso típicos dos anos 90. A faixa que apresenta o título do disco, Sing For Absolution, é a tipicamente comparável ao som do Radiohead, uma música extremamente melancólica com um vocal sofrido e uma letra taciturna e depressiva. Mas se há tantas referências, por que o som do Muse é tão único? Exatamente pelas fontes de referências que a banda explora de maneira inédita na década, já que nada se cria do zero. Eles resgatam um clima dos anos 90, junto de elementos eruditos clássicos, ainda com o pop dos anos 80 e um virtuosismo instrumental impressionante. A extrema aplicação técnica acompanhada das influências de Radiohead e Rage Against The Machine, além também do U2 e seus efeitos, talvez ainda a influência do Portishead com seu som peculiar dos anos 90, com certeza nomes oitentistas como Depeche Mode e New Order e até mais longe, com o Queen e sua refinada formação. O Muse então mistura o erudito, o peso e a melancolia dos anos 90 com efeitos desta década e dos anos 80, criando, portanto, uma nova concepção de rock anos 00, tendo em comum sim a exploração dos efeitos da década de 80 com essas outras bandas, mas aplicados de maneiras muito distintas, além da forma que a banda executa isso tudo, notavelmente forte e intensa no palco, mostrando o trio como uma unidade elementar. Há outros grupos dos anos 00 que também fazem uso do eletrônico com o rock e outros ritmos, inúmeros, e que atingiram sucesso, tal como o 30 Seconds to Mars do ator Jared leto (porém essa banda não apresenta nenhum elemento inédito além do fato de seu líder ser um renomado ator de Hollywood que, apesar da qualidade em alguns aspectos, se parece muito com as outras bandas contemporâneas intituladas de emo core, com mais visual carregado do que música, o que fez com que muitas destas acabassem por cair no esquecimento, mesmo possuindo algum caráter musical interessante, como é o caso de My Chemical Romance, por exemplo), também o Daft Punk, entre outros. Dos anos 90, temos grandes nomes como o Prodigy, além de cantores e demais artistas da cena pop que exploram essa mistura, porém a maioria destes não possui o conceito de banda de rock tradado aqui. Um ou outro hit também não são suficientes para tal caracterização de relevância cultural, avalia-se um trabalho através dos anos, com alguns discos e singles importantes lançados, tal como os outros nomes citados nesse texto possuem.

 Esta identidade fica ainda mais evidente no lançamento de seu maior sucesso comercial, e também mais complexo disco até então, o Black Holes and Revelations, de 2006, onde a banda aborda temas mais intrigantes em suas letras, além da nítida evolução musical. O disco já começa com a
Black Holes and Revelations, de 2006,
álbum definitivo do século XXI
apocalíptica faixa Take a Bow, que apresenta já no seu início uma gama de sons eletrônicos somados ao vocal melódico e penetrante de Bellamy, onde este parece apontar para a cara de um opressor ditatorial imperialista moderno, o acusando de corrupto e declarando que este queimará no inferno por seus pecados contra a terra e a humanidade... Como dito, as letras nesse trabalho também apresentam um amadurecimento, abordando de maneira coletiva temas, angústias e reivindicações, como é evidente na apoteótica música que o encerra, a Knights of Cydonia, onde se canta o verso “you and I must fight for our rights, you and I must fight to survive”, declamado numa espécie de refrão, onde várias vozes se harmonizam, fazendo um tipo de intimação ao ouvinte, para que este aja, estimulando então uma reação conjunta entre banda e audiência. Também há faixas que retratam nitidamente uma relação amorosa entre duas pessoas, tal como Starlight, porém mesmo nessa, que é um dos grandes hits da história do grupo, a banda tenta fugir do clichê, associando uma viagem espacial ao romantismo da letra, cantando o título do disco junto da expressão “our hopes and expectations”, dando uma ideia de que esses desejos e ideias se perdem na vastidão de um universo desconhecido e inexplorado, além, claro, da harmonia criativa e dos arranjos inteligentes e inovadores. Letras intrigantes já eram apresentadas no disco anterior Absolution, como na faixa Thoughts of a Dying Atheist, porém em Black Holes... a abordagem lírica é mais rica, mais clara e objetiva. O disco é recheado de pérolas, que definem o alto grau de complexidade musical experimentado pela banda, por isso, quase todas são destaques. Há a solidão emblemática de Map of the Problematique, também a entristecida e motivacional Invincible, é destaque também Assassin, que possui um caráter temático semelhante à faixa de abertura, apresentando um peso característico do disco antecessor, mais as melancólicas Soldier’s Poem e Hoodoo e também a talvez mais conhecida música da banda, graças a inserção em um filme de sucesso entre milhões de adolescentes, o vampiresco e juvenil Crepúsculo, chamada Supermassive Black Hole, que faz alusão ao título do disco e que, musicalmente, já desponta um outro campo que será explorado nos próximos discos da banda, uma espécie de eletro disco funk.


 Mas se esses discos são uma definitiva inovação no rock nos anos 00, os shows da banda são ainda mais surpreendentes. Lotando estádios e fazendo incríveis aparições em festivas de imensa magnitude, a banda no palco soa extremamente entrosada, reproduzindo ao vivo toda a energia transmitida em seus discos, mostrando toda a técnica aplicada pelos instrumentistas da banda, além de evidenciar a qualidade do canto de Bellamy, que executa o peso, os solos e as harmonias de sua guitarra magnificamente, ainda toca piano de forma majestosa e canta de maneira muito técnica e precisa, às vezes operística, com extrema qualidade. A banda no palco conta ainda com um quarto elemento, Morgan Nicholls, que executa piano, sintetizadores, vozes e às vezes linhas de guitarra e de baixo, contribuindo para que o show se torne um verdadeiro espetáculo para qualquer admirador de boa música. A conclusão desse imenso sucesso atingido pelos álbuns Absolution e Black Holes and Revelations pode ser vista no CD e DVD ao vivo lançados em 2008 chamado HAARP, concerto este que foi realizado em 2007 no estádio Wembley, em Londres, onde a banda toca seus maiores sucessos até então, provando de vez que é a maior banda dos anos 00 numa performance esplêndida e exuberante. Uma curiosidade nesse show é que o grupo inicia a apresentação com a última faixa do disco Black Holes... e encerra com a primeira deste, invertendo a lógica de apresentação do álbum.

 Mas o que faz uma banda ser grande de verdade? É se manter no topo, é lançar mais e mais discos de qualidade, e com o The Resistance, de 2009, o Muse prova que não é um sucesso passageiro. O disco, que foi premiado com o Grammy de 2011 na categoria de Melhor Álbum de Rock, apresenta ainda mais complexidade que seus antecessores, além de sucessos comerciais e uma turnê de estrondosa magnitude e reconhecimento. O álbum, que é recheado de efeitos eletrônicos, apresenta ainda mais elementos eruditos, como na faixa United States of Eurasia, que possui uma passagem de piano ao final que remete a uma obra de Fredéric Chopin chamada Nocturne em mi bemol maior, além das orquestrações durante esta que também lembram a música do oriente médio, fazendo jus ao título da faixa, que nada mais é do que um continente formado por Europa e Ásia. De acordo com Bellamy, o título e o tema da música foram inspirados em um livro de Zbigniew Brzezinski, e ele ainda diz: "Brzezinski tem um ponto de vista sobre a população da Eurásia, Europa, Ásia e Oriente médio em geral, que precisa ser controlada pela América a fim de proteger seu suprimento de petróleo", disse o guitarrista e vocalista de acordo com o site Wikipedia. Essa música em questão já demonstra o grau de complexidade e audácia do álbum, que ainda conta com as faixas Exogenesis, uma obra sinfônica dividida em três partes que encerra o disco, além dos sucessos de Uprising, que soa como o eletro disco citado anteriormente, com uma letra que também aborda uma proposta de ação coletiva contra um ato de repressão praticado por alguma forma de poder, faixa marcada pela introdução de baixo recheado de efeitos e groove. Ainda temos a canção título The Resistance, que retoma um tema otimista e também é mais uma obra de composição complexa. Também o single Undisclosed Desires, cuja faixa é algo eletrônico, pop e dançante. Todo o álbum é de altíssima qualidade, mantendo um clima melancólico de seus trabalhos anteriores em Guiding Light, mesmo em meio às batidas e efeitos eletrônicos, além da já citada Exogenesis, que transmite melodias tristes e introspectivas de maneira muito intensa, encerrando o álbum num tom de tristeza e grandiosidade.


 Após a avalanche de sucessos através dos anos e a quase unanimidade de críticas positivas sobre o álbum The Resistance, arrancando elogios até mesmo de Brian May, guitarrista do Queen, a banda lança então o seu sexto e mais recente álbum até o momento, The 2nd Law, de 2012, mantendo os arranjos orquestrais e o amplo uso de recursos eletrônicos. A faixa de abertura já mostra a síntese de elementos explorados pela banda, Supremacy, a qual possui um início marcado pela guitarra de Bellamy, ainda com arranjos orquestrais grandiosos e uma letra que mais uma vez aponta para uma figura representante de um poder opressor, como o próprio título sugere. O disco conta com faixas que seguem ainda uma postura mais pop, tal como Follow Me, mas se tratando do Muse, esse pop é recheado de vocais melancólicos e sintetizadores característicos. É destaque também a emotiva canção Explorers, cuja ao vivo apresenta o vocalista ao piano, se mostrando uma bela música de letra reflexiva. Também é notável a explícita inserção ao funk na faixa Panic Station, que é marcada pelo baixo forte, pelas guitarras e arranjos funkeados e pelo ritmo dançante. Ainda temos o baixista atuando como cantor principal na bela faixa Save Me e também em Liquid State. Survival é destaque por se tratar de uma obra complexa, com riffs marcantes de guitarra e orquestrações, cuja possui uma introdução apontada no disco como um prelúdio, sendo a mais erudita do álbum. Mas a principal faixa do disco e o seu maior sucesso, com certeza, é a música Madness, que explora efeitos eletrônicos exuberantes, lembrando um pouco o Depeche Mode, também o Queen dos anos 80 e até o velho Kraftwerk. A faixa possui um elemento diferenciado executado pelo baixista Christopher Wolstenholme, um protótipo construído junto ao seu baixo que reproduz esse som característico marcante na música, ela ainda apresenta um belo e elaborado solo de guitarra, além da harmonia vocal muito melódica, com um desempenho ao final definitivamente emocionante, onde Bellamy atinge notas altas e difíceis. A faixa se desenvolve suavemente até atingir o seu clímax, fazendo jus ao status de principal sucesso do disco em questão. A letra aborda uma relação amorosa que, de acordo com o site Wikipedia, teria sido inspirada após uma briga entre Bellamy e sua noiva na época, a atriz Kate Hudson. O casal ficou junto por quatro anos e têm um filho, este que é homenageado na faixa Follow Me.


 Em 2013, a banda lança mais um trabalho ao vivo, nos formatos de CD/DVD e Blu-ray, intitulado Live at Rome Olympic Stadium, gravado em julho de 2013 em Roma e lançado mundialmente com versões inclusive para o cinema, em um show prestigiado por mais de 60 mil pessoas. Gravado com câmeras de alta tecnologia, o show apresenta a banda no seu auge, dando enfoque nos dois últimos trabalhos lançados, mas levando o público ao delírio com faixas como Plug in Baby e Knights of Cydonia. O show explora bastante o lado tecnológico da banda, com muitos efeitos e recursos, criando um espetáculo de proporções megalomaníacas, tal como o U2 faz há pelo menos 20 anos, no entanto, a performance da banda, suas habilidades técnicas e a energia que transmite, nada disso é afetado, pelo contrário, o concerto atinge dimensões espetaculares, com imensas telas de projeção e iluminação deslumbrante, com ainda inserções teatrais; esquetes que interagem com o tema de algumas das músicas, que expõe personagens imersos em uma vida executiva e burguesa capitalista moderna, onde acabam engolidos. Desde o início do concerto, o tema sobre energia e sustentabilidade é abordado, fazendo eco a algumas letras executadas no show, além de pôr líderes mundiais pra dançar no telão. Há ainda a aparição de uma espécie de balão em formato de lâmpada, de onde sai uma trapezista suspensa sobre o público em uma bela performance, que surge no momento em que a banda executa a faixa Guiding Light, agregando de forma lúdica o show.


 Recentemente, a banda divulgou na rede dois vídeos de músicas novas que farão parte do disco a ser lançado em junho de 2015 chamado Drones. De acordo com o site Wikipedia, Bellamy afirma que o disco terá uma sonoridade mais voltada aos trabalhos antigos da banda, mais simples e pesado,
abordando como tema um futuro distópico, onde drones são utilizados como armas operadas ainda por outros drones, transformando os seres humanos, por sua vez, também em drones, em uma visão metafórica onde todos são máquinas operadas à distância com fins assassinos e destruidores. A primeira música divulgada chama-se Psycho, lançada como single e vídeo clip simultaneamente, fazendo uma crítica explícita ao sistema militar que transforma jovens em soldados psicóticos, sonoramente parecendo muito mesmo com os primeiros trabalhos da banda, pesado e direto, com efeitos moderados, inclusive tendo o seu riff principal já executado em shows antigos da banda. A segunda faixa apresentada soa mais eletrônica, mais melódica, e chama-se Dead Inside. Ela aborda um tema que vai diretamente de encontro ao título do disco e sua proposta, criticando um futuro pós-moderno onde o indivíduo é vazio de identidade e de sentimento. Uma bela faixa que aponta que o Muse seguirá apresentando alta qualidade em seus discos, e que definitivamente, é o principal nome do rock surgido após os anos 2000.


Conclusão

 Em suma, gostos se discutem, se alteram, se aperfeiçoam, e principalmente, se respeita o do próximo, porém há fatos que vão além do simples gosto pessoal de um indivíduo, e uma análise histórica sobre as culturas e o comportamento humano, a linguagem e tudo que se refere a antropologia, vai além de visões rasas baseadas em sentimentos e opiniões particulares, e no rock n’ roll não é diferente. Aqui a intenção foi expor fatos que aconteceram ao longo dos anos, e que vem acontecendo sempre, dentro dessa cultura musical arrebatadora do século XX e como ela entrou no século atual, com pitadas de gosto pessoal, claro. Sobre o Muse, não é possível dizer que esta banda determinou os rumos do rock na atualidade, que difundiu uma grande moda, que revolucionou o mercado, já foi dito aqui que o último ícone legítimo do rock foi o Nirvana, porém nos tempos atuais, não sabemos se será possível uma nova revolução de tamanha magnitude, pois o acesso à informação está muito modificado, a internet sim revolucionou o mercado da música como um todo, e não parece haver condições de suceder tal impacto novamente tão cedo. Bandas clássicas seguem sendo as campeãs de bilheteria, e discos, já não se vende nem um quinto do que se vendia antigamente. Esteticamente, com exceção das clássicas tendências que seguem, a moda e o comportamento que os jovens ouvintes de rock assumiram nos últimos anos se tornaram tão efêmeras quanto qualquer outra moda difundida pela grande mídia, que antes, devido à sua contestação ao gênero em questão, acabava por contribuir para a popularidade de bandas e personalidades polêmicas, mas hoje já não é assim, porém crises “impossíveis” também já foram superadas no passado. No Brasil, definitivamente, a alienação alimentada pelos veículos de comunicação aumenta ainda mais o vácuo existente na cultura do jovem, onde os poucos espaços que se arriscam a apostar em nomes locais, acabam perdendo audiência e dinheiro. Rádios especializadas não dispensam os clássicos, impondo em suas programações apenas as novidades que lhes pagam as contas, e na televisão, hoje quase não há programas dedicados à musicas que motivem o pensamento e a emancipação do indivíduo através deste. Hoje, muitos dos próprios roqueiros pregam discursos reacionários e totalmente opostos ao que outrora fora uma postura roqueira subversiva. O rock n’ roll começou como uma ameaça rebelde. Foi assimilado, mas logo depois novamente rebelou-se, depois foi de novo incorporado e assim através dos anos até recentemente, porém hoje é muito difícil, quase impossível, apontar as tendências culturais que poderão predominar daqui a dez anos nesse âmbito, sabemos apenas que, das grandes bandas surgidas no final dos anos 90 e que explodiram nos anos 00, são pouquíssimas as que enchem arenas e estádios pelo mundo afora, que consigam este feito hoje em 2015, sejam elas talvez apenas essas: Arctic Monkeys, Coldplay, Muse e Foo Fighters, porém este último teve um começo bastante particular, cujo foi muito impulsionado pela popularidade da ex banda de seu líder Dave Grohl, mas que acabou superando essa sombra da fama através da sequência de ótimos discos de rock, com muita energia, carisma e qualidade, enchendo cada vez mais shows por todo o mundo, sempre elogiada pelas maiores figuras da história do rock n’ roll. Porém é fato que, das bandas citadas, o Muse é a mais inventiva, a mais complexa, a mais ousada e a mais grandiosa banda estourada nos anos 00, e que segue no ritmo de se tornar uma das maiores de todos os tempos. Mas isso só o tempo dirá.



terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Mary Shelley's Frankenstein - 1994

 Longe de ser a melhor adaptação literária da história de Hollywood, ainda assim o filme cumpre bem sua função, mesmo com o excesso de pirotecnia, alguns exageros na maquiagem (na criatura feminina ao menos), um certo imediatismo cronológico e um bocado de cenas pomposas, talvez desnecessárias, podendo dedicar o sagrado tempo da película aos confrontos, diálogos e demais situações de caráter psicológico das personagens, e talvez à algumas cenas de susto, mesmo assim o filme emociona, resgata o teor melancólico, obscuro e extremamente infeliz da história original. A adaptação de Kenneth Branagh (Harry Potter E a Câmara Secreta; Thor), que ainda conta com a produção de Francis Ford Coppola, se esforça muito em ser fiel ao romance de Mary Shelley, apesar da sua própria interpretação como o personagem central Victor Frankenstein deixar um pouco à desejar, no entanto, o elenco ainda conta com Helena Bonham Carter (Harry Potter E o Enigma do Príncipe; Sweedy Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet), que sempre se adéqua  aos papéis fantásticos e sombrios que lhe permitem, e ainda com o mestre indiscutível Robert De Niro, que incorpora a criatura, dando-lhe o devido caráter depressivo, soturno e repugnante que, mesmo sob toda a maquiagem tosca, é evidente a performance talentosíssima do mestre, que tudo o que faz no cinema o faz com maestria e excelência, arrancando lágrimas de fato ao final de sua história de terror e melancolia. Obviamente muito já se fez no cinema sobre a obra de Mary Shelley, este romance que, sem sombra de dúvida, é um dos maiores da história da literatura, que chocou a classe literária na época de seu lançamento, pois mostrava uma história de terror, de desgraças familiares, de rejeição, de amor e ódio nunca antes vista, principalmente pela tenra idade que tinha Shelley quando concluiu a sua obra. Muitas foram as reinterpretações do clássico, muitas dessas distorcendo o teor original, a caracterização das personagens, porém não se pode afirmar que esta seria a melhor investida no cinema sobre o livro em questão, mas pode-se sim afirmar que o filme remonta em parte a agonia, a profunda depressão, a vida em desgraça e a obstinação de ambos protagonistas, a sede de vingança e o desamparo sofridos pela criatura, a loucura cega pela exploração do desconhecido por Frankenstein, tudo isto sob o frio obscuro do hemisfério norte. A obra não almeja a perfeição, com cenários por ora um pouco teatrais, principalmente no seu início em Genebra, com uma maquiagem e caracterizações imperfeitas nos detalhes, mas é fiel em parte ao clima do romance original, arrancando lágrimas e suspiros, mesmo daqueles que já leram o livro, pois estes sabem que, mesmo em parte, o pouco que se obtenha de êxito em recriar o aspecto original e a melancolia da clássica publicação, já é o suficiente para apertar o peito e chorar pela dor da criatura desolada e abandonada à sua própria ignorância e detestável existência.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Bent - 1997

 Que filme! O meu amigo Alex Limberger havia me indicado este filme há um tempão, mas só agora o assisti. Assim como a peça Os Homens do Triângulo Rosa, o filme é baseado na obra de Martin Sherman, que é roteirista deste. Com uma atuação incrível de Clive Owen, além do elenco com Ian McKellen, Mick Jagger, uma breve participação de Nicolaj-Coster Waldau (O Jaime Lannister de Game of Thrones) e uma mais breve ainda atuação de Jude Law, o filme expõe, tal como a peça, o horror do holocausto, porém abordando um tema que ainda hoje é tabu, os homossexuais perseguidos naquele período. E na data que marca os 70 anos da libertação de Auschwitz, o filme é uma baita pedida. Assista essa obra e essa aula de como não deve agir a raça humana, mas também uma aula de como a imaginação e o afeto, o amor, podem se sobressair ao aprisionamento físico, desde que a mente esteja sã e livre.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

trecho de La Playa



 Escrevi isso entre 2011 e 2012, na primeira temporada que passei numa praia em Santa Catarina (qual será?). É uma espécie de memória, mas com pitadas de conto, de crônica. Na verdade, eu não sei no que se encaixa esse texto, sei que exponho algumas coisas, um pouquinho comprometedoras talvez, mas na verdadeira intenção de praticar a literatura apenas, mesmo que a referência seja a própria vida pessoal. O texto vai transcorrendo de acordo com o passar dos dias, mudando os assuntos de maneira natural.






... Após a tarde em que servi pela última vez as mesas do lugar, depois das 18h, despedi-me e me direcionei ao caminho de casa, quando do nada, assim, de repente, surge uma tempestade inesquecível, que pegou a todos de surpresa, que foi aumentando, aumentando, até se tornar uma tempestade torrencial, arrancando galhos, derrubando postes, cortando a rede elétrica, assustando a todos, realmente. E eu na estrada, no caminho para casa, no meio da pior tempestade que já cruzei a pé, sem guarda-chuva, com muito vento me empurrando ao revés, derrubando coisas à minha frente, inclusive um pequeno arbusto que veio em direção à minha cabeça, agora soando engraçado, mas que na hora fora realmente tenso. Quase uma hora de caminhada. Essa cruzada fez-me lembrar os clássicos filmes no Vietnã. Vento forte, frio, chuva, um desafio a cada passo. Claro que sem todas as bombas e todos os corpos dilacerados, mas com uma raiva, um sentimento de bravura que me invadia, me impelia a seguir adiante, pois o desafio de cruzar as estradas desertas, em meio a toda a vegetação do lugar, com toda a tempestade acontecendo, sim, me fez sentir-me um John Rambo tropical fugindo dos vietcongues, lutando pela vida. Exagero? Talvez, mas você não estava lá, você não sabe o quanto eu caminhei, só eu sei as esquinas por que passei.

 No começo eu tentei, quase que desesperadamente, me adaptar ao clima, ao “movimento” da praia, temia (acho que ainda temo um pouco) essa inconstância da vida, todos esses ciclos que vão e vem, toda a insegurança que isso traz, por isso tinha a necessidade de adaptação urgente, tão esmagadora, me tornando inseguro ao encarar a nova realidade, o novo mundo.
 Hoje acho que essa inconstância é um dos baratos da vida, claro que algumas coisas pesam por serem assim, ou por acabarem sendo. Família, amor, amizade, essas coisas não devem ser inconstantes, devem ser profundas e verdadeiras, quanto mais duradouras, melhor, porém no fim, maior também é a queda. Mas esse é o ciclo, devemos evitar a queda, trabalhar para que o próximo degrau esteja ali, pronto para o nosso pé.

 Minha necessidade de adaptação implica na minha vestimenta, no meu modo de falar, nas músicas que ouço, algo como “em Roma, aja como um romano”, porém logo esse sentimento dissipou-se, a naturalidade retorna, percebe-se que “em Roma, pense e entenda você mesmo um romano, não finja ser um”. Não finjo ser outra pessoa, me adapto, mas sigo sendo eu, eu mesmo e minhas loucuras, o pacote inteiro adaptado ao novo ciclo, adaptado mais uma vez à inconstância da existência.

 E mais uma vez acabou-se um ciclo aqui na praia, e inicia-se outro, minha namorada acabou por “quebrar os pratos” com a gerente do restaurante que trabalhava. Veja bem, o lugar é pesado, as responsáveis, duas mulheres, são namoradas, vivem juntas, nas dependências do próprio restaurante. A dona, a chefe de cozinha, a male do casal. A gerente, a female. As duas brigam como cão e gato, brigas presenciadas há três temporadas pela minha parceira. Quase sempre ocorridas na cozinha, vazando gritos e insultos até os ouvidos de algum cliente no bar. A dona construiu seu império sozinha, com garra e foco, mas isso (ou sei lá o que mais!) a deixou amarga, fria, uma alma azeda, que transtorna com a sua presença, pesa o ambiente ao seu redor. Desafortunados são seus colegas de cozinha. Já a gerente é uma pessoa meiga, quase que totalmente o oposto da chefe, porém, ela não está desde o princípio do negócio, por isso ela é a gerente, não sócia, deve satisfações como qualquer outro empregado no restaurante à megera. A pobre criatura ouve tantas reclamações que acaba surtando. Uma paranoica, que nunca deixa de exigir empenho robótico dos seus funcionários, sempre repassando as ordens da grã mestre. Porém esse transtorno do qual ela parece ser vítima, não impede que ela também se torne opressora, a tornando submissa ao tratamento que recebe, e revertendo seus infortúnios a toda equipe de produção, de atendimento. Uma relação insana, conjugal e profissional. De amor e ódio.
 Após todas essas visões de energia radicalmente negativa, depois de tantas reclamações por ela experimentadas, depois de olhares fulminantes de reprovação, quase que diários, mesmo com toda a dedicação e profissionalismo empenhados por minha namorada, assim ela desistiu, chutou o balde, abandonou tudo, relatando sua insatisfação em um simples bilhete deixado no bar do restaurante e no testemunho geral de seus colegas.
 Contudo, meu trabalho no lugar (que era afastado quase que 90% desse ambiente praticamente hostil, pois me encontrava no estacionamento, sozinho com meus livros e música, a não ser nos momentos de banheiro e lanche, que acabava por encarar a figura cadavérica medieval da chefe, mesmo ela sendo uma pessoa de beleza femininamente bela, seu rosto é feminino e belo, mas sua expressão é feia, rancorosa e masculina) foi pelos ares, junto com a demissão de minha namorada. A gerente afirmou que, por ela, continuaria sem problema algum minha função por lá, mas logo que consultou o Mefistófeles de avental, declarou que não seria mais necessária minha presença, iniciando mais uma vez a saga, a busca por mais um emprego, por uma fonte de renda, agora para nós dois, mais dois novos desempregados en La Playa.

 No entanto, esse afastamento mútuo do trabalho já nos rendeu mais bons momentos juntos. Em um deles, fizemos uma trilha espetacular entre duas praias próximas aqui da região. Uma trilha em uma encosta sobre o mar, cruzando rochas altas, rochas que recebem a fúria do oceano, levantando a água a metros de altura, também com espinhos e animais de peçonha. Tudo sob um belo e escaldante sol, contemplando uma beleza singular. 45 minutos de caminhada até a praia ponto de partida da trilha, mais uns 45 minutos também pela trilha, onde nos demos com outra magnífica praia, também de muitos turistas gringos, gente rica e fútil por todo o lado, mas todos um, uma mesma massa de gente sob o mesmo céu azul, desta terra abençoada por paisagens tão belas e inspiradoras.
 Ainda antes de retornarmos pela mesma trilha, ali jogados no chão estávamos quando visualizei uma garotinha e seu pai. Ao nosso lado, a garotinha tinha um olhar triste e distante, devia ter uns 9 anos. Gordinha, sozinha, logo me identifiquei com ela, senti um pesar imenso naquilo, me vi também sozinho, gordinho, branquelo na praia, onde todos pulam, gritam e brincam, e eu sigo sozinho, ou sozinha, vendo tudo como um espectador da felicidade alheia. Tive vontade de puxar papo com ela, perguntar seu nome, idade, essas coisas que se perguntam às crianças, mas segui calado, pois tanto quanto ela é, sou mais pensador do que socializador. Queria dizê-la que era linda, que podia ver nos seus olhos o futuro brilhante que a esperava, que tinha um ótimo e amoroso pai (que estava sempre demonstrando preocupação com seu conforto ali na areia), que podia ver o brilho dela, um brilho emanando pureza, inteligência, futura sabedoria, que pessoas assim, que talvez se achem feias quando crianças, estão na verdade trabalhando o interior, o espírito, não espírito do gênero Chico Xavier charlatão, espírito no sentido de consciência, de aprimoramento interior e intelectual, de autoconhecimento. Crianças quietas, caladas, às vezes tristes, tristes com sua aparência, com sua condição solitária, futuramente se tornam pensadoras, artistas, com virtudes eternas, não com preferências fúteis e efêmeras, como a aparência física e externa. Se tornam pessoas de interior belo, para sempre terão nas suas consciências a empatia pelo desolado, pelo tímido e acanhado, mesmo já tendo quebrado essa barreira de socialização que as crianças tanto sofrem no convívio comum com outras crianças, na escola, nas ruas, etc. Claro que, salvo raras exceções de casos de psicopatia, por exemplo.

 Por isso sou o que sou, porque um dia fui sozinho, solitário, triste, desenvolvi em mim pensamentos, não futilidades egocêntricas, tal como as crianças ricas e belas desenvolvem com total apoio dos pais. Os pais nada querem além da felicidade dos filhos, custe o que custar, porém nem sempre o que representa felicidade momentânea é saudável para todo o resto da existência do indivíduo. A criança é um indivíduo, mas às vezes é tratada como uma jóia. Será que não se lembram, os pais, que tudo o que é visto, ouvido, sentido nos primeiros anos de vida, acredito que até uns 12 anos, fica para sempre na nossa memória? Molda definitivamente nossa personalidade, o que somos, mesmo que, com a adolescência, as coisas se confundam e corram o risco de se perderem para sempre, normalmente após os 20 anos, toda aquela experiência de vida dos primeiros anos retorna, definindo de vez nossa existência e personalidade.

 Cuidem de suas crianças, alimentem suas mentes, plantem os valores que lhe são corretos nos primeiros anos, pois estes serão lembrados até o fim de suas vidas.
...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Rock no Brasil e suas contradições



 Ramones seguirá sendo estampa de moda do público que vai no show de sertanejo? Moicano será ainda o corte de cabelo preferido dos pagodeiros? Os "hard rockers" seguirão tão reaças quanto os exemplares roqueiros Lobão e Roger do Ultraje a Rigor, que mais parecem uns velhos escravagistas do século 19? A caretice seguirá imperando no meio roqueiro do braziu?
O emo foi o último movimento roqueiro? Haverão outros? As pessoas saberão os nomes das músicas que ouvem nos próximos anos? Ou o Youtube se encarregará de providenciar o contingente musical pra sempre? Alguém ouve um álbum inteiro ainda hoje? Qual será o porcentagem dessa gente "estranha" que faz isso?
Confuso. O futuro, como sempre, é assustador.
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 No Brasil, ou Braziu iu iu ... o mesmo onde os cristãos deste país dizem "Amai o próximo como a ti mesmo", mas que pedem pena de morte. Que abominam os traficantes, mas votam no Aécio Neves, que protestam, quebram tudo, se o seu time cai pra segunda divisão, ou sua escola de samba, mas se a luz sobe 55%, ou a passagem de ônibus sobe, ou a exposição da máfia das empreiteiras junto aos meios de comunicação e políticos, ou então quando os deputados sobem o próprio salário e roubam escancaradamente, não fazem nada, declarando apenas que não adianta fazer nada. Que acham lindo a bandeira verde e amarela e se dizem nacionalistas quando rola Copa do Mundo, mas ostentam a bandeira estadunidense nas roupas e acham que lá é tudo melhor, Miami chic, Nova York o must, Disney fun, incorporando tudo quanto é palavra idiota em inglês no vocabulário, e acham que os argentinos, paraguaios, cubanos e os demais latinos são "tudo vagabundo", dignos de desconfiança, pois acham que não são latinos como eles, desdenhando talvez o picolé da esquina, mas se for um importado, uma paleta mexicana, pagam bem por isso . Que vão no verão para as praias do nordeste, mas pedem separação do país quando o seu partido político perde as eleições. Que pagam 500 reais para assistir um show de gringo e não pagam 10 pra ver uma banda autoral local, etc, etc. EU TENHO VERGONHA DE SER BRASILEIRO. O Brasil é lindo, a música, as manifestações artísticas, mas que no entanto, apenas uma parcela pratica e valoriza essas coisas boas. Esse é o BRAZIU, uma cópia xerocada, genérica, do pensamento, da ignorância, dos preconceitos, de algumas coisas boas, como a música e outros exemplos artísticos, não neguemos, mas principalmente das coisas ruins, idiotas, imbecis dos Estados Unidos, cultura plantada depois da 2ª Guerra Mundial até hoje pelos meios de comunicação em geral. Braziu, aqui escrito errado porque é isso o que é, um erro, uma puta explorada que acha que o cafetão lhe faz um favor em lhe comer a bunda e ainda cobrar por isso.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Liberte-se

 Sou ateu, com viés político de esquerda, possuidor de fraquezas e talentos comuns à toda a raça humana. Minha religião é a música, a literatura, a arte, de onde tiro inspiração, exemplos, conforto, além dos amigos e família. Quem precisa acreditar numa fantasia mágica como se fosse real é fraco, presunçoso, egoísta também, pois há quem faça o bem apenas pela recompensa no seu paraíso imaginário. Deus e deuses não existem. Existiram e existem sim grandes pensadores, grandes humanos, heróis, que deixaram legados indispensáveis na construção da sociedade e da consciência humana. Adorá-los como fantásticos e sagrados seres sobre-humanos é estúpido e inútil. A fé e a esperança podem fazer bem, mas é apenas uma ilusão, e a decepção é a consequência natural de uma esperança sem uma atitude.
 Psicotrópicos foram muito usados em rituais religiosos no passado, o que causou mais veemência na crença de muitas coisas absurdas. O Islamismo, o Judaísmo e o Cristianismo são as piores religiões que se tem notícia atualmente, pregam o ódio, o preconceito, o terror, isso durante milhares de anos, matam mais que fome. Se o deus que pregam existisse realmente, essa figura cruel e ditatorial, ser satanista parece ser uma opção bastante razoável.
 Respeito você, crente, mas chega de assistir calado ao constante emburrecimento da sociedade. Já foi muito pior, hoje temos informação de fácil acesso, mas ainda não foi resolvido o problema. A corrupção do povo e da política está intimamente ligada a cultura e a educação deste povo. Onde mais a religião age desmedidamente é onde há mais ignorância e, quanto mais burro e ignorante, melhor pros políticos, pra mídia, pros barões da economia e pros religiosos pregadores.
Liberte sua consciência, mesmo que o capitalismo não permita uma liberdade plena, liberte-se.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Tolkien e os cem anos da magia da Terra Média

 No ano do centenário dos primeiros registros em que J. R. R. Tolkien começa a esboçar os manuscritos de sua grande mitologia, também chega aos cinemas o terceiro e conclusivo capítulo de O Hobbit, A Batalha dos Cinco Exércitos, tonificando ainda mais a popularidade da obra deste épico escritor, adentrando no século XXI de maneira revigorada .
 Recentemente, o jornal inglês The Guardian publicou uma extensa e rica matéria sobre o pontapé inicial de toda a mitologia de Tolkien, um poema datado de 1914 em que o então jovem escritor concebe a gênese de sua literatura, intitulado A Viagem de Éarendel, A Estrela Vespertina, onde o autor descreve um marinheiro imaculado que sobe aos céus com sua nau, transformando-se em uma estrela, explicando de maneira mágica o surgimento da Estrela D’Alva, também chamada Estrela Vespertina. Segue abaixo uma parte do poema original e a tradução do site brasileiro Valinor:


Éarendel sprang up from the Ocean’s cup
In the gloom of the mid-world’s rim;
From the door of Night as a ray of light
Leapt over the twilight brim,
And launching his bark like a silver spark
From the golden-fading sand;
Down the sunlit breath of Day’s fiery Death
He sped from Westerland.

Éarendel ascendeu-se sobre a beira do Oceano
Na escura borda do limiar do mundo;
Pela Porta da Noite como um facho de luz
Avançou pela orla do crepúsculo,
E lançando sua barca como um brilho de prata
Da dourada e desvanecida areia;
Desceu pelo ar da flamejante morte do dia
Ele partiu das Terras do Oeste.

 Com clara influência da poesia de Percy Shelley, e muitas referências da cultura nórdica e celta, o jovem Tolkien a partir daí criou o mundo épico que veio influenciar tantos escritores, cineastas e músicos nos próximos cem anos. Já nessa primeira obra, ele demonstra a intenção de explicar fenômenos naturais através de histórias mágicas, pois o movimento que a nau de Eärendil executa no céu, como é retratado mais tarde no livro O Silmarillion, representa o movimento do planeta Vênus, que é chamado também de Estrela Vespertina, assim como o faz com o surgimento do sol, da lua, das demais estrelas, dos mares e de quase tudo o que existe na terra, chamada de Arda em sua criação, desde o seu surgimento, a origem da vida de seus habitantes, além do relato das guerras através das eras; de grandes feitos de personagens e suas histórias, até o fim da Guerra do Anel e o início da Quarta Era.
J. R. R. Tolkien no exército/WEB
 Até então, era comum entre os leitores conceber como marco inicial da mitologia o livro O Hobbit, primeira publicação de seu autor, datada de 1937, no entanto, a descoberta desse manuscrito de 1914 remete e comprova a origem de tudo, em meio ao iminente terror da Primeira Guerra Mundial que estourava, quando então o jovem acadêmico alista-se no exército, ainda recém aperfeiçoando seus estudos filológicos e as inquietações de sua mente criativa. Também no prefácio da publicação póstuma que foi o livro O Silmarillion, editado e organizado por seu filho Christopher Tolkien e lançado quatro anos após a sua morte em 1977, este retrata o quão antigos são os registros que compõe essa obra, que remontam a 1917, em meio às dificuldades em que foram concebidos, pois então o jovem tenente e escritor se encontrava nas trincheiras da guerra. “Na realidade, embora na época não se chamasse O Silmarillion, ele já existia meio século atrás, em cadernos velhíssimos podem ser lidas as versões iniciais das histórias mais importantes da mitologia, muitas vezes escritas às pressas, a lápis”, escreve Christopher então no prefácio do livro, ainda salientando que, mesmo que não houvesse o publicado em vida, seu pai nunca o abandonara, pois sempre mantinha a sua atenção na obra, também devida a grande dificuldade de organização e coerência que deveria ser mantida em referência à publicação que, nos anos 70, fora um sucesso estrondoso, mesmo tendo sido lançado 20 anos antes, rendendo finalmente renome internacional ao grande escritor, a trilogia O Senhor dos Anéis, onde há muitas indicações de fatos e histórias que depois foram organizadas e retratadas de maneira detalhada em O Silmarillion. Seu pai ainda deixou um vasto material inédito, que desde a sua morte, Christopher vem editando e lançando aos poucos. Um destes é a compilação de contos chamada Contos Inacabados lançado em 1980, que abrange grandes histórias entre as três eras de Arda, dentre outras obras que não se limitam a mitologia da Terra Média.
Contos Inacabados da editora
brasileira Martins Fontes/Capa John Howe

                                                                         
                                                                            Música


 Foram muitos os artistas que se influenciaram pela obra de Tolkien nos idos dos anos 70. Músicos como o grupo de rock inglês Led Zeppelin foi um destes, além de inúmeras outras bandas desse período que, por adotar uma característica mágica, onde magos, hobbits e anões fumam seus cachimbos, também as inúmeras referências ao folclore europeu; o visual descrito das paisagens e personagens, um senso de liberdade nômade que emergia da história, além da bela poesia que complementa a prosa da obra, a partir do final dos anos 60, a geração hippie se identifica com todo o mundo mágico, místico e heroico da saga na Terra Média criada por Tolkien e que germinou frutos em distintos artistas em suas respectivas áreas do entretenimento e da cultura mundial.
 Segue abaixo trecho da música Misty Mountain Hop da banda Led Zeppelin, onde além do título, que refere-se às Montanhas Nevoentas na tradução brasileira, trata claro da realidade dos jovens da geração daquele período:


So I've decided what I'm gonna do now
So I'm packing my bags for the Misty Mountains
Where the spirits go now
Over the hills where the spirits fly


Numa tradução livre ficaria:

Então eu decidi o que vou fazer agora
Então estou fazendo minhas malas para as Montanhas Nevoentas
Para onde os espíritos se vão agora
Sobre as colinas onde os espíritos voam


E segue o link da faixa:





 A referência nesta faixa é bastante sutil, apesar do título ser direto, porém há outras músicas do grupo que também fazem referência a obra de Tolkien. Talvez a mais evidente seja a faixa The Battle of Evermore, uma canção folk com uma harmonia tradicional e que tem toda a sua letra inspirada no romance O Senhor dos Anéis. Segue um trecho da mesma:


Queen of light took her bow
And then she turned to go
The prince of peace embraced the gloom
And walked the night alone

Oh, dance in the dark of night
Sing to the morning light
The dark lord rides in force tonight
And time will tell us all


Na tradução livre:

A Rainha da luz pegou seu arco
E então voltou-se para partir
O Príncipe da Paz abraçou a melancolia
E caminhou sozinho à noite

Oh, dance na escuridão da noite
Cante para a luz do amanhecer
O Senhor escuro cavalga em vigor esta noite
E o tempo nos contará tudo



 Abaixo o link da faixa:




 Mais tarde, já nos anos 90, a banda alemã de heavy metal Blind Guardian vai mais longe, gravando um álbum conceitual, todo inspirado na obra O Silmarillion, chamado Nightfall in Middle-Earth, lançado em 1998, retratando através de suas letras algumas passagens relacionadas a distintos capítulos do livro, de maneira livre, porém coerente, resultando numa obra admirável, desde a arte de sua capa, que ilustra o momento em que Lúthien e Beren, o primeiro casal oriundo da união das raças de homens e elfos, enfeitiçam o então primeiro senhor do escuro Morgoth e lhe roubam uma das três Silmarills, as gemas sagradas construídas por Feänor, e que outrora o próprio
Capa do disco Nightfall in Middle-Earth da banda Blind Guardian
Morgoth lhe roubara na terra de Aman do outro lado do mar... O disco não abrange todos os capítulos do livro, começando sua narrativa quando o senhor do escuro Melkor, também chamado Morgoth pelos elfos, é libertado de seu cativeiro na terra sagrada de Aman, cobiça e enfim rouba as três Silmarills de Feänor, fugindo para a Terra Média, sendo perseguido então pela legião de elfos da casa Noldor, liderados por Feänor, que buscam recuperar as joias custe o que custar. O disco desenvolve-se a partir daí cronologicamente, com algumas adaptações e interpretações idiossincráticas, mas de maneira bela, ricamente musical e coerente, onde consegue transmitir grande parte dos sofrimentos ocorridos nas infrutíferas guerras travadas na Primeira Era por elfos e homens contra Morgoth Bauglir, O Sinistro Inimigo, encerrando então sua narrativa no momento em que o senhor do trono escuro vence a quinta batalha intitulada Nirnaeth Arnoediad, que na língua sindarin, língua dos elfos cinzentos, significa Lágrimas Incontáveis, e retém em cativeiro Húrin, um dos grandes senhores dos clãs dos homens da região chamada Dór-Lómin, no norte da Terra Média. O livro ainda se estende por mais alguns capítulos, pois no disco todos os fatos remetem à Primeira Era do mudo, e no livro há ainda relatos da Segunda e da Terceira Era.
Abaixo o link da faixa Noldor (Dead Winter Reigns), onde a banda narra a sofrida travessia dos Noldors abandonados por Feänor, que tiveram que cruzar as gélidas regiões nortenhas entre a terra de Aman e a Terra Média, sem navios ou suprimentos para atravessar o mar, tal como fez Feänor e sua prole, na loucura de seu orgulho e arrogância pela busca das gemas, abandonando seus parentes. Uma das mais belas faixas deste disco:





 Há ainda inúmeras bandas de heavy metal cujas retiraram seus títulos da mitologia tolkieniana, são algumas delas: Gorgoroth, Amon Amarth, Cirith Ungol, Morgoth, Burzum, dentre muitas outras referências em músicas e discos de muitas outras bandas, na Europa e no resto do mundo, que a mitologia de Tolkien influencia desde os anos 50, mas que teve o seu auge popular nos anos 70. Todos estes títulos de bandas tratados aqui são originais dos idiomas criados por Tolkien na sua extensa obra.


                                                                            Literatura


 É notável o quanto J. R. R. Tolkien segue influenciando escritores bem posteriores à sua geração, assim como o fazem outros tantos escritores de literatura fantástica como ele, tais como Lewis Carrol, Bernard Cornwell, Geroge R. R. Martin e J. K. Rowling o fazem, fizeram e o farão enquanto a humanidade apreciar a arte da literatura épica e fantástica de altíssima qualidade. O grande escritor e roteirista criador das Crônicas de Gelo e Fogo, da qual é inteiramente baseada a série de TV Game of Thrones, da britânica HBO, admite ser um
Ilustração de Morgoth/WEB
grande fã de Tolkien, tendo relido várias vezes as suas obras, de onde tirou, dentre tantas outras referências históricas e culturais, inspiração para a concepção de seu grande romance, podendo hoje considerar que sua obra já superou em drama, em quantidade de detalhes de lugares e personagens, a grande mitologia de Tolkien, não obtendo talvez a mesma dimensão cronológica que O Silmarillion aborda em suas páginas, por exemplo, ou talvez não supere a poesia que tanto Tolkien esbanja em sua prosa, mas se sobressai sim nas questões sociológicas, na complexidade de seus personagens, no quão fiel à realidade medieval, à crueza do mundo, à barbárie da raça humana, às desgraças, aflições e amoralidade que compõe a história da sociedade humana desde sempre, sem definir fronteiras perenes entre heróis e vilões, fazendo com que seus leitores e tele-espectadores reflitam sobre suas próprias escolhas no mundo real, que tanto se parece com o mundo de As Crônicas de Gelo e Fogo, mesmo tendo seu enredo recheado de fantasia. Nesse caso, é possível dizer que sim, ao menos em muitos aspectos, o aprendiz superou o mestre.
 Em entrevista cedida à revista Rolling Stone, publicada em junho de 2014, George R. R. Martin responde sobre se ficou preocupado com possíveis comparações que sua obra poderia levantar com a obra de Tolkien. “Na verdade não fiquei preocupado. A partir dos anos 1970, os imitadores apenas retraçaram os mesmos caminhos que ele, sem nada da originalidade e do amor que Tolkien tinha pelos mitos e histórias. Mas eu sempre fui considerado, pelo menos dentro do gênero, um escritor sério. Além disso, a história me pegou de uma maneira muito forte. Achei que meus livros podiam ter o tom cru e sujo da ficção histórica misturado a um pouco da magia e do fascínio da fantasia épica”, declara Martin à revista Rolling Stone. Também fala sobre a extrema violência das suas obras, contrastando com sua personalidade agradável, de acordo com a revista, respondendo se isso gera algum conflito sobre suas visões sobre poder e guerra. “A guerra descrita por Tolkien era pelo destino da civilização e pelo futuro da humanidade, e isso virou o padrão. Não tenho certeza se é um bom padrão, entretanto. O modelo de Tolkien levou gerações de escritores de fantasia a produzirem uma série infinita de lordes malignos e seus terríveis exércitos, todos sempre feios e vestidos de preto. Mas a vasta maioria das guerras através da história não foi assim. A Primeira Guerra Mundial representa um exemplo muito mais típico de guerra do que a Segunda – o tipo em que você olha depois e diz: Por que diabos estávamos lutando? Há apenas um punhado de guerras que realmente valeram o preço pago”, declara Martin à Rolling Stone, e continua. “Nasci só três anos depois do fim da Segunda Guerra. Você quer ser herói. Quer fazer algo, seja o Homem-Aranha lutando contra o Duende Verde, seja o norte-americano salvando o mundo dos nazistas. É triste dizer, mas acho que vale a pena lutar por algumas coisas. Os homens ainda são capazes de grande heroísmo. Mas eu não acho que sejam necessariamente heróis. Isso é algo que aparece bem nos meus livros: acredito em grandes personagens. Somos todos capazes de coisas boas e más. Temos anjos e demônios dentro de nós, e nossa vida é uma sucessão de escolhas” declara o grande escritor George R. R. Martin, que talvez não tivesse criado nada parecido com As Crônicas de Gelo e Fogo se não fosse o legado deixado pelas obras de Sir John Ronald Reuel Tolkien. 

Feänor enfrenta Gothmog, o senhor dos balrogs de Morgoth/Bob Greyvenstein


                                                                            Cinema


 A grande popularidade que o escritor esbanjou nos idos dos anos 70 foi restaurada com força no começo do século XXI, pois então o diretor Peter Jackson decide apostar no romance épico, adaptado para as telas de cinema de maneira ousada. O que poderia ter sido um grande risco e um grande fracasso se mostrou na verdade um tremendo sucesso, arrebatando uma legião de novos fãs à literatura, desencadeando uma cultura popular e participativa nunca antes vista pelos remanescentes da família Tolkien, parecida com o que há também em relação às sagas Star Wars e Harry Potter, com inúmeros fóruns de estudos e discussões sobre a obra no vasto mundo da internet, e que até hoje, mesmo
A Sociedade do Anel/WEB
com todo esse sucesso, a família Tolkien não vê com bons olhos toda essa dimensão que o resultado da experiência cinematográfica atingiu, também porque financeiramente não lhes rendem tanto quanto aos estúdios associados de Hollywood, especialmente a empresa New Line Cinema, dona de uma grande fatia dos direitos. “Eles arrancaram as vísceras do livro, tornando-o um filme de ação para jovens entre 15 e 25 anos”, declara Christopher Tolkien ao jornal francês Le Monde. “E parece que O Hobbit será o mesmo tipo de filme”, afirma ele antes do lançamento da nova trilogia, sem esperanças em relação à sequência que estava por vir. “Tolkien tornou-se um monstro, devorado por sua própria popularidade e absorvido pelo absurdo da nossa época”, observa Christopher. “Ampliou o abismo entre a beleza e a seriedade do trabalho, e o que ele se tornou. E já foi longe demais para mim. A comercialização reduziu o impacto estético e filosófico da obra a nada. Há apenas uma solução para mim: Virar meu rosto para outro lado”, declara com certa tristeza para o Le Monde, ele que é o terceiro dos quatro filhos do escritor, sendo ele e sua irmã Priscilla Tolkien os últimos filhos sobreviventes, atuando então como executor testamentário de seu pai e diretor geral da Tolkien Estate, empresa que gerencia e distribui os royalties de direitos autorais para os herdeiros da família.
 Mesmo em meio a toda essa divergência, gerada entre os produtores dos filmes, dos jogos e demais artigos vinculados à mitologia de Tolkien, com os remanescentes de sua família, é notável a inclusão que esses artigos fazem, cada vez mais, de novos leitores entusiastas na sua literatura, sendo impossível também negar a qualidade dos filmes em seu formato, mesmo que estes se apeguem mais ao visual, ao som e a ação, do que com a filosofia e a poesia da obra literária. Muitos dessa geração tão somente conheceram o trabalho do escritor através da trilogia O Senhor dos Anéis para o cinema, o que desencadeou uma nova febre, que por sua vez, incomoda Christopher e sua família, já que também é notável a intromissão e aborrecimentos que muitos destes fãs geram a seus criadores, tal como acontece com George R. R. Martin e J. K. Rowling, mas que rendeu um renome ainda mais vasto ao legado de seu pai, e que não tão cedo será esquecido.
O dragão Smaug ataca Esgaroth/John Howe 
 Em ambas as trilogias dirigidas por Peter Jackson, O Hobbit e O Senhor dos Anéis, os recursos digitais para a caracterização das personagens e cenas de ação são abundantes, mas não chegam a prejudicar o curso do filme em si, mesmo que em ambas as trilogias, a quantidade de alterações feitas pelo diretor é excessiva. A omissão de personagens por ora importantes; a criação de outras, inexistentes nos livros, também cenas e fatos que, por uma questão obviamente de tempo, são omitidas na história dos filmes, ainda que não agridam demasiadamente o curso geral da saga. Contudo, muitas são as discrepâncias, o que é natural em uma adaptação cinematográfica, pois o fã mais atento deve considerar o filme como uma obra independente em si, pois é impossível a total fidelidade nos mais variados aspectos de uma obra literária adaptada para o cinema, no entanto, é possível apontar como graves algumas das alterações feitas, pois há a nítida “invenção” de fatos e acontecimentos que, em nenhum momento, são sugeridos nos livros, o que enfraquece o caráter das personagens, dando um apelo extremamente comercial a inúmeras partes do enredo, como por exemplo, quando Gollum joga fora o suprimento de lembas, o pão élfico de viagem, nos altos das Montanhas da Sombra, acusando Sam de ter os comido sozinho. Isso não acontece nos livros, e tal fato corrompe a personalidade de Frodo, que fica do lado de Gollum e que nas telas se mostra um indivíduo fraco, mas que nos livros apresenta muito mais virtudes como um hobbit diferenciado que era.
 Visualmente, os filmes cumprem muito bem os seus papéis, tanto os cenários, onde a maioria das locações foi feita na Nova Zelândia, país de origem do diretor, quanto na caracterização de figurinos e aparência das personagens, é notável o resultado positivo. Desde os orcs, názguls, elfos e demais criaturas da Terra Média, quanto as personalidades distintas e o aspecto repugnante da criatura Gollum, que outrora na história era conhecido como Sméagol, são bastante convincentes, sendo fiéis a intenção descritiva do autor em suas páginas. Claro que, desde os anos 70, são inúmeras as ilustrações baseadas na obra de Tolkien, o que facilitou a concepção para os filmes, e ainda por contar também com a colaboração na produção visual do desenhista John Howe, responsável pelas mais famosas ilustrações da mitologia tolkieniana, que ilustram várias edições de seus livros pelo mundo.
 O Hobbit, por ser a trilogia mais recente, conta com mais recursos digitais do que seu antecessor, no entanto, não o supera em nenhum aspecto, tendo no seu segundo volume A Desolação de Smaug o pior resultado entre os seis filmes. Há ainda o fato de o livro ser publicado em um volume único, mais simples e menor que O Senhor dos Anéis, porém rendendo também três filmes de duração quase igual a este, por isso, há inúmeras cenas desnecessárias e apelativas, mas que mesmo assim, é possível dizer que fez jus a fama e a qualidade da trilogia que o antecedeu, tendo na sua conclusão, o título A Batalha dos Cinco Exércitos, um ótimo encerramento com muita ação do começo ao fim, principalmente para aqueles que optam pela exibição em 3D nas salas de cinema, o que rende momentos eufóricos durante a sessão, deslumbrando voos rasantes do grande dragão Smaug em meio à cidade de Esgaroth em chamas, além das batalhas entre os exércitos de orcs, elfos, anões, homens e águias na cidade de Valle, em frente à Montanha Solitária, rendendo, ao menos visualmente, uma ótima experiência para os fãs das adaptações para o cinema, e também para os fãs de filmes de ação e fantasia em geral. Em suma, os filmes em si obtiveram êxito em muitos aspectos, no entanto, o drama das personagens e suas raízes são desvalorizadas. Muito pouco da essência verdadeira da obra nos livros é capturado nas telas.
Samwise e Frodo na versão cinematográfica


                                                                            Filosofia


 O que fica claro nas adaptações para o cinema da obra literária de Tolkien, e que seu filho Christopher ressalta, é a leviandade que a história assume a partir de então, deixando algumas personalidades bastante inverossímeis, pois perde-se o conteúdo e a ideologia que os acompanha no decorrer da saga, e que no filme, também por questões de tempo e também comerciais, são negligenciadas, além claro de toda a poesia que acompanha a prosa do autor.
 O duro destino cruel que viveram os antepassados de Aragorn, o peso que este carrega nas costas, descobrindo sua herança e descendência apenas na maioridade; os conflitos que sofre, principalmente quando após a queda de Gandalf, quando a Sociedade se separa e Boromir é morto,
Capa da primeira edição de O Hobbit idealizada por Tolkien
toda a trajetória penosa que enfrentou após abandonar Valfenda e seu amor por Arwen Undómiel, comparável apenas ao amor entre Beren e Lúthien e entre Tuor e Idril Celebrindal, ambos os casais oriundos da junção entre elfos e homens, e que desde a Primeira Era, então há mais de seis mil anos atrás, não acontecia, dentre outros tantos dilemas que Aragorn enfrenta em sua jornada e que nos filmes não são valorizados, pois nem de longe conseguem captar e transmitir o intenso drama travado por essa personagem nos livros . Há ainda a astúcia e sabedoria de Gandalf, que ressalta que “quando os sábios tropeçam, a ajuda costuma vir da mão dos mais fracos”, como relata em uma breve passagem ao fim de O Silmarillion. Nos filmes há indícios dessa filosofia de Tolkien, de que nas mais simples formas de vida, no cotidiano de gente humilde e comum, também moram grandes corações; de onde grandes atos de bravura podem surgir nos momentos mais inesperados e desesperadores.
 E também há ainda, além de muitos outros pontos possíveis de destaque nos livros, a bravura de Samwise Gamgee, que nos filmes se mostra um jardineiro simples e bondoso, como grande parte da população do Condado, mas que se revela um verdadeiro herói na conclusão da saga, pois mesmo que nos filmes a personagem seja encarada dessa maneira, nos livros os seus atos de bravura sobre a torre de Cirith Ungol, e além, junto do exército de orcs em Mordor, deprimentemente disfarçados, famintos e cansados, e depois na Montanha da Perdição, tudo isto no cinema não é retratado à altura, ao menos psicologicamente, da verdadeira superação em que o jovem hobbit atinge no desenrolar dos capítulos conclusivos do terceiro volume intitulado O Retorno do Rei. Uma história de superação extrema, atingida apenas e unicamente pela coragem desmedida de Sam, pois nada mais lhe restava além disso, fazendo com que a emoção, ao menos a este que vos escreve, atinja o seu auge no capítulo chamado O Campo de Cormallen, em que os hobbits, Sam e Frodo, são reverenciados na região de Ithilien pelo exército do oeste, após as semanas de recuperação depois de terem destruído finalmente o Um Anel, onde Aragorn, agora chamado rei Elessar, junto de Gandalf, Legolas, Gimli, Éomer, o príncipe Imrahil de Dol Amroth, os filhos de Elrond, os dúnedain nômades do norte, e todo o exército atrás destes, em uníssono, os reverenciam emocionados, gritando nos idiomas sindarin e quenya as seguintes palavras:


Cuio i pheriain Annan! Aglar’ni Pheriannath!
Daur a Berhael, Connin en Annûn!
Eglerio! Eglerio!
A laita te, laita te! Andave laituvalmet!
Cormacolindor, a laita tárienna!

Que na tradução significa:

Vida longa aos pequenos! Louvai-vos com grande louvor!
Louvai-vos com grande louvor, Frodo e Samwise!
Louvai-vos! Louvai-vos!
Os Portadores do Anel, louvai-vos com grande louvor!


 E ainda no poema recitado por Bilbo Bolseiro em Valfenda, em meio à reunião do Conselho de Elrond, onde é formada a Sociedade do Anel, quando Aragorn é questionado por Boromir, que duvidava de sua descendência númenoriana:


Nem tudo que é ouro fulgura
Nem todo o vagante é vadio
O velho que é forte perdura
Raiz funda não sofre o frio


Das cinzas um fogo há de vir
Das sombras a luz vai jorrar
A espada há de, nova, luzir
O sem-coroa há de reinar





Fontes na internet: www.valinor.com.br, www.wikipedia.org


http://whiplash.net/materias/biografias/188914-blindguardian.html


http://rollingstone.uol.com.br/edicao/edicao-93/george-rr-martin-game-of-thrones-entrevista-rs#imagem0