segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A Revolução dos Bichos - George Orwell


 “[...] As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”, do trecho final da obra.

 Mais do que uma crítica árdua ao comunismo em si, é de fato, como revela o próprio autor, uma tentativa de resgate da ideia socialista original, e a exemplificação da transformação causada pela tomada de poder na mente da maioria dos homens, que acaba por corromper o espírito da revolução, transformando em verdadeiros déspotas os seus líderes. É uma crítica, como quem já leu o clássico bem sabe, satírica sobre o stalinismo e suas práticas, e que na cena final - o que fez com que a própria CIA, que o distribuía como propaganda anticomunista, ocultasse de sua publicação animada - remete à comparação do regime stalinista com o regime capitalista, sendo duas faces opressoras de uma mesma moeda, cena esta que satiriza o encontro entre Churchill, Roosvelt e Stálin em Teerã, onde não se distinguiria os tais porcos dos humanos. Também pode ser apontada como talvez uma singela propaganda ao anarquismo de Mikhail Bakunin, mesmo que não intencionalmente, já que este rompe com a Internacional Socialista de Marx, de quem fora admirador, denunciando qualquer posicionamento superior de líderes políticos, se distanciando do comunismo que poderia, como se provou mais tarde, enveredar para uma ditadura sangrenta, abolindo totalmente a ideia de Estado, de classes e de fronteiras em seus manuscritos. A lição que fica do clássico, esta que seguirá imutável mesmo que passem 500 anos de sua publicação, e que é brilhantemente apontada no posfácio de Christopher Hitchens, é que “aqueles que renunciam a liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra”, e principalmente, a valorização das aulas de história, donde podemos tomar conhecimento de que nem sempre foi assim, nem tudo o que está escrito é verdade, e que não importa a cor da bandeira do regime ditatorial, a opressão e a mentira estarão presentes sempre que houver um grupo que manda e lucra e outro que apenas segue ordens, pois de fato existem apenas duas classes de seres humanos, os vivos e os mortos.


domingo, 6 de setembro de 2015

Narcos - 2015


 Não decepciona a primeira temporada de Narcos, pois há uma ótima presença de Wagner Moura interpretando o mítico gangster, convencendo bem com seu espanhol estudado e ensaiado e com sua forte presença. É um grande ator. Também sequências de perseguições em cenários típicos que desenham o ambiente de maneira realista, com muita inserção de fotos e vídeos históricos. Com certeza, uma ótima série de ação com relevantes fatos reais, que revelam parte de como se formaram os grandes cartéis narco traficantes da Colômbia. Mas também é notável na série um senso de imparcialidade, onde o narrador, membro da DEA, não omite as inescrupulosas manobras de seu famigerado país, CIA, exército, embaixadora e dele próprio, que para atingir sucesso em sua busca, foge às regras junto de seu parceiro, indo contra aos seus próprios princípios nacionalistas, me parece que em parte a série enfraquece essa ideologia patriótica imperialista estadunidense, e isso é bom. O que a série também vende em parte, o que também é claro em séries como Breaking Bad e Game of Thrones, por exemplo, são as personagens ambíguas, os anti heróis, o conceito de que, todos temos o bem e o mal dentro de si, ninguém é inocente, não há heróis, há conveniências. Pablo Escobar queria o congresso e o populismo, os “heróis” que o perseguem são apenas três, além da dupla de agentes que escapavam de seus protocolos e desafiavam seus superiores, cada um com suas motivações, o militar Carillo é o perseguidor de maior idoneidade e bravura entre eles, um colombiano, enquanto o governo gringo queria apenas perseguir os “comunistas”, ou seja, só o confronto político de quem manda mais com a velha USSR importava, foda-se a Colômbia, foda-se a Nicarágua, só o poder vale, apenas quando se deram conta do império que se levantava, tendo como mercado o seu próprio jardim, é que os estadunidenses fingiram se importar, porque apenas, de novo, alguém poderia se equiparar em algum aspecto com o Tio Sam e sua prepotência. A série evidencia isso na primeira metade da primeira temporada, por isso enfraquece essa visão heróica que Hollywood sempre vendeu pro mundo, a arrogância norte americana é exposta através das personagens, e isso a desmoraliza, além de quando ocorre o nítido acordo ao final com o cartel de Cali, evidenciando ainda mais o anti heroísmo da obra. Também uma boa trilha sonora com clássicos latinos e o tema de abertura de Rodrigo Amarante, que caiu bem. Além dos brasileiros Wagner Moura e André Mattos no elenco, a série tem a direção e roteiro de José Padilha em alguns episódios, que conta ainda com o chileno Pedro Pascal como Javier Peña, o príncipe da casa Martell assassinado na arena em GoT, e Boyd Holbrook como protagonista, o agente Steve Murphy, mas o destaque do elenco é de fato Moura, que engordou 20 quilos para o papel. O trabalho é feito por gente de experiência em muitas das outras grandes séries produzidas recentemente, tendo o criador Chris Brancato já trabalhado em séries como Arquivo X e Hannibal, porém a troca de diretores constante pode ter alterado o ritmo dos episódios entre si, mas creio que isso seja normal e proposital, fato que é uma grande série, que foca mais nos conflitos em torno das personagens principais, evitando uma glamurização de festas e outras possíveis extravagancias ocasionadas pelo consumo de drogas, é raro ver alguém usando a cocaína na série, apenas a maconha tem seu consumo bastante mostrado, além da planta em si, o que acontece também com a coca no início, mostrando parte de como ocorre a fabricação da droga. Tudo indica uma próxima temporada ainda sobre a saga de Pablo Escobar, basta que siga com a qualidade desta que o sucesso aumentará. Recomendo!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A Maldição de Frankenstein - 1957



 Se analisarmos a obra como sendo uma interpretação à parte do romance original, mesmo hoje, o filme pode ser considerado um marco referencial do gênero, o que de fato é, pois foi a primeira imersão no universo do horror gótico da produtora inglesa Hammer, lá nos idos de 1957, e que foi objeto de sua dedicação até o final dos anos 70, despontando estrelas como Peter Cushing e Christopher Lee.

 A Maldição de Frankenstein foi um sucesso na época, o que fez com que a Hammer seguisse apostando no gênero, no entanto, nem de longe desencava os sentimentos angustiantes, a melancolia e o clima lúgubre e amaldiçoado que inunda toda a extensão do romance de Mary Shelley, pois como dito, essa é uma interpretação bem diferente do romance, o que pode ter sido causado por questões dos direitos sobre a obra original, por isso, além dos nomes de algumas personagens da trama, apenas o fato de Victor Frankenstein ser um cientista obcecado pelo seu trabalho, que consiste em dar vida a uma criatura formada por partes distintas de cadáveres, é idêntico ao livro, o que é obrigatório no filme que detém tal título, no entanto no filme, o cientista assassina parte das vítimas que compõe o corpo de sua criatura, fato extremo que não ocorre no livro, dentre outras particularidades da película bem distintas do original. Mas temos pequenas alusões também, por exemplo quando a criatura encontra-se com um velho cego em um bosque, o que no livro se dá de maneira e circunstâncias muito diferentes. Não temos o drama nos confins dos gelos polares que dão inicio à obra, e que também ambienta o seu triste desfecho, o filme se passa todo na casa de Frankenstein, que a herda ainda muito jovem, quando então começa os seus estudos macabros, apoiado pelo tutor contratado. No livro, esse processo de aprendizado se dá de maneira muito diferente, com Victor mergulhando de fato em sua pesquisa apenas quando sai da casa de seus pais em Genebra, estudando autores alquimistas considerados ultrapassados em sua época, em uma obsessão que ultrapassa qualquer limite de sanidade, o que lhe faz cair doente e termina por desgraçar toda a sua família. Claro que a devida ambientação traria gastos exorbitantes à produção, além de que, provavelmente teria um resultado desastroso, dessa maneira, o diretor Terence Fisher consegue dar vida a uma nova obra baseada no clássico romance, e que obteve o êxito merecido, difundindo o gênero a inúmeras gerações que viriam a seguir. 
 Enfim, o filme como uma obra independente é muito bom, com um cenário e um clima que, com certeza, aterrorizou o público na época de seu lançamento, mas que hoje, não passa de uma referência histórica, trazendo diversão ao público, e também o deslumbre de um dos primeiros trabalhos de sucesso de Christopher Lee, que encarna o monstro, ator cujo hoje é cultuado por legiões de fãs, por seus inúmeros trabalhos desde a época na Hammer.

 O filme faz parte da mostra Hammer - 80 anos de Horror, na Sala P. F. Gastal, que fica no 3º andar da Usina do Gasômetro. A mostra vai até o dia 16 de agosto, abaixo o link.



terça-feira, 28 de julho de 2015

Eclético


 Eu gosto de Dead Kennedys e de Roupa Nova. Ouço de Los Hermanos a Impaled Nazarene, de Rhapsody a Soda Stereo. Sou muito influenciado por nomes distintos como Radiohead e Def Leppard, também desde Beatles a Muse. Adoro jazz, country e samba também. Por isso há a necessidade de se classificar eclético, mesmo que o sendo dentro de certas limitações, mas que não são tão específicas. Gosto da música pura, e também da música ideológica, falando de amor ou protestando, com crítica social ou besteirol sexista, música política ou non sense, erudita ou marginal. Não é numa banda de punk, de blues ou de heavy metal que eu me satisfaço, mas numa banda que faça tudo isso, de maneira radicalmente livre, simplista ou experimental. Pois toda a afirmação é uma negação. Tampouco me importa a língua cantada, só o bom gosto e a qualidade é que importam, e a impressão de sinceridade e excelência naquilo que se faz e que se mostra pro mundo. O universo musical se resume cientificamente apenas em Nota e Ritmo, o resto é arte, e cada um sabe o que é melhor pra si e pra seus ouvidos. 
 
 
Queen - A Night At The Opera - 1975
Dentro do rock, há inúmeros artistas que se propõe a essa liberdade de experimentação, desde os anos 60, quando a música oriental e os recursos de estúdio aprimorados deram uma outra dimensão para a música pop desde então. Dentre muitos, nos anos 70 o Queen, com o seu genial A Night At The Opera, chocou parte do público pela mescla de gêneros explorados, desde o balé até o country, e claro, o hard rock glam em voga na época. Mais tarde, a partir do fim dos anos 80, através dos 90 e entrando nos 2000, temos em Mike Patton um ícone do experimentalismo radicalmente livre, que é evidente em todos os seus projetos, que vão do inclassificável Mr. Bungle, através do exitoso e também perturbador Faith No More, passando por projetos como Fantômas, Tomahawk e Peeping Tom, além do seu disco solo intitulado Mondo Cane, onde apresenta canções populares italianas acompanhado de uma orquestra. A dinâmica de estilos é tão imprevisível quanto as capacidades de sua performance vocal, que vai do gutural ao falsete, como barítono e às vezes até como tenor, no jazz, funk, metal, hard rock, rap, grind core, death metal, pop e seja lá o que mais! No Brasil, temos a banda porto alegrense De Falla, que é precursora da mistura de vários gêneros, brasileiros e estadunidenses, de maneira que beira ao absurdo, com hard rock, funk, rap, entre outras misturas excêntricas, eletrônicas ou pesadas, que fazem do disco Kingzobullshitbackinfulleffect92, de 1992, um clássico incomparável.
De Falla - Kingzobullshitbackinfulleffect92 

 



 Abaixo o link do disco de 2003, Director's Cut, do projeto Fantômas, formado em 98 e liderado por Mike Patton, projeto/banda que tem o título oriundo de um personagem da literatura e do cinema francês, cujo apresenta temas de filmes em versões bizarras, misturadas ao metal e ao hard core extremo. Também destaco a versão para Satisfaction, dos Rolling Stones, pelo De Falla no disco em questão, que soa algo muito bem elaborado, calcado no soul e que, de maneira bizarra, adentra ao que se pode chamar de thrash metal. Insano!





Fantômas

sábado, 18 de julho de 2015

Muse - Drones - 2015

 Dando continuidade à matéria analítica sobre o já concreto legado deixado e construído atualmente pelo Muse, e passados em torno de 40 dias do lançamento mundial oficial do seu mais recente disco, e também por já haver vídeos e impressões abundantes pela internet sobre a banda, penso ser o momento apropriado para uma resenha do álbum lançado em 9 de junho deste ano aqui no Modus Operandi.

 O disco foi anunciado em março, com a banda declarando que se trataria de um trabalho mais voltado aos primórdios da banda, com mais peso, mais básico, também foi descrita a linha temática do álbum, que referia-se a um futuro distópico onde homens eram dominados por máquinas, que manipulavam drones, que por sua vez controlavam outros drones, transformando então o ser humano num ciborgue metade humano metade drone escravizado. Um disco conceitual foi anunciado. Simultâneo ao anúncio do álbum, do tema e da arte da capa, que traz então uma tela com soldados manipulados à distância por um ser que também é manipulado, dando profundidade ao conceito, também fora disponibilizado a primeira faixa e o seu videoclipe, Psycho foi o primeiro trabalho exposto, revelando de fato um peso característico dos primeiros discos da banda, além de um clipe crítico ao sistema militar e a manipulação brutal dos jovens através deste serviço.
 Outras faixas foram sendo disponibilizadas sistematicamente até o lançamento físico e oficial de Drones em junho, deixando menos da metade do disco inédito até o derradeiro lançamento, no entanto, isso aumentou ainda mais o enfoque sobre o trabalho da banda, que em grande parte, cumpriu com o prometido em março.
 O disco, que é produzido pelo lendário Robert Mutt Lange, que trabalhou com AC/DC, Def Leppard, entre outros, abre com a faixa Dead Inside, cuja foi a segunda a ser divulgada logo após o lançamento de Psycho, porém nesta, observa-se vários elementos eletrônicos, diferente, portanto, do peso esperado, ainda mais pela expectativa criada por Psycho. Porém a faixa é bela e traz a tona o tema sobre o vazio interior causado pela artificialidade do ser humano nesse mundo pós moderno, podendo ser considerada uma das melhores faixas do álbum, mesmo que musicalmente, apresente mais semelhança ao clima do disco anterior da banda, o The 2nd Law, por causa dos efeitos e da sua estrutura. Nessa faixa, mais uma vez Matt Bellamy atinge notas altas e evidencia o seu canto primoroso e apurado, mas que ao vivo, não repete com precisão as partes mais altas e difíceis, como quando canta a frase “don’t leave me out in the cold...”, porém fisicamente, o músico está muito longe de se aproximar de sua decadência, ele tem apenas 35 anos. A próxima música na sequência é Psycho, preludiada pela fala do sargento cujo é personagem central da faixa, que leciona um exercício militar cruel mostrado no clipe lançado em março. A faixa tem um peso característico da influência do nu metal que o Muse apresenta, porém os fãs mais assíduos reconhecem que o riff principal é bem antigo, sendo possível notá-lo em shows que remetem desde 2004, ou antes, nos momentos de peso semi improvisados que acompanham os finais de algumas faixas, tal como ocorria em Stockholm Syndrome. A sua letra parte da perspectiva do sargento, ditando sua doutrina que desenvolve assassinos psicóticos. Uma música bastante crítica que faz jus ao peso anunciado anteriormente.  Na sequência temos a faixa Mercy, que também fora lançada antes do disco na internet. A música é quase uma balada e foi muito bem recebida pela crítica mundial, pois ela tem variados elementos que a personificam, teclados, efeitos, boas linhas de guitarra, com uma levada pop e com um refrão grudento, e mais uma vez, com uma maravilhosa linha vocal de Bellamy, que explora bastante seus falsetes, como sempre. A letra agora se põe no lugar de uma vítima que clama por misericórdia, ao que é explorada e escravizada por essa inteligência manipuladora que opera através dos supracitados drones.

 A quarta faixa do disco é, na opinião deste que vos escreve, a melhor, é tudo aquilo que foi anunciado em termos de peso e temática, Reapers apresenta todos os elementos centrais do disco, mas ainda, em sua introdução, podemos ouvir toda a técnica apurada da guitarra de Bellamy, que executa fazendo uso do tapping, técnica muito explorada por variados guitarristas virtuosos e que foi popularizada por Eddie Van Halen ainda nos anos 70, havendo ainda em uma das críticas periódicas de um jornal local a comparação de Reapers com a clássica Hot For Teacher, do Van Halen, do disco 1984, o que faz bastante sentido visto o caráter técnico da guitarra na introdução. Em Reapers, Bellamy ainda executa um dos seus melhores solos da carreira, preciso, técnico e marcante. A melodia do refrão também é bela, com a voz de Matt recheada de efeitos, o que por sua vez a desvaloriza um pouco, ainda mais ao vivo, soando exagerado esse uso dos efeitos nessa parte da voz. A faixa ainda conta com momentos de puro peso, tendo o baixista Chris Wolstenholme berrando literalmente a frase “here come the drones!”, com sua voz também recheada de efeitos, porém dando um aspecto sujo e robótico à sua voz, o que se encaixa no contexto. Reapers também foi lançada antes do disco - poucas semanas antes - em um clipe que explora uma perseguição através do uso dos drones, indo de encontro direto com a letra, que aborda o ápice da decadência humana através da subordinação às máquinas, transformando o homem em uma presa sendo caçada por ceifeiros e “falcões” cibernéticos, mantendo então a temática distópica do disco, citando inclusive a C.I.A. como uma das formas opressoras, e sua brutalidade. A seguir, a música de Drones talvez mais aclamada pelos fãs da banda, a poderosa The Handler. Esta apresenta já no seu início um riff pesado, se transformando numa das faixas mais cruas do disco, tal como Psycho, com poucos efeitos se comparada às demais, com uma melodia fascinante e trabalho vocal magnífico novamente, também é notável a presença da linha de baixo marcante de Wolstenholme, que explora um arranjo complexo, não se limitando ao básico, e claro que a técnica de Dominic Howard não deixa nunca a desejar. A letra revela uma espécie de sequência à Reapers, pois transmite uma ideia de que a personagem se encontra presa sob o domínio do opressor, clamando por liberdade, seria, portanto, a consequência da fuga infrutífera transmitida na faixa anterior. A música ainda apresenta outro solo apuradíssimo de guitarra, tornando então esta uma das melhores faixas do disco absolutamente.

 A seguir encaminha-se a segunda metade do disco, que não apresenta a mesma qualidade da primeira, mas ainda mantém alto nível e desdobramentos sobre o tema central. A faixa Defector tem como introdução um discurso de J. F. Kennedy, onde este critica as formas dissimuladas de guerrilhas pelo mundo, dentre outras críticas ao sistema internacional visto de seu modo, exprimindo um aspecto positivista, mesmo crítico, como a música em questão. A letra de Defector relata a liberdade do indivíduo, que escapa, ou deserta, do sistema que o oprime, porém musicalmente, a faixa não apresenta tanta qualidade quanto as demais, sendo talvez a mais fraca do disco, mesmo tendo um riff inicial atraente e levadas interessantes e com certo peso. Depois temos Revolt, apontada por muitos como a mais pop do disco, soando como um hit adolescente, porém apesar dessa característica, é uma faixa fascinante, mesmo com o seu refrão grudento recheado de falsetes, porém de muita qualidade. De fato lembra algo jovial, mas agradável, salientando o clima positivista desse momento do disco, tendo na sua letra um estímulo à revolta adolescente em meio a ruídos e sirenes. A seguir, há a primeira que pode ser considerada uma balada de fato, a faixa Aftermath apresenta o momento quando o indivíduo cansa de fugir e lutar e apenas quer retornar aos braços e ao conforto de seu amor, sendo uma faixa simples e melódica, sem nenhum peso ou momento virtuoso, com uma introdução de guitarra modesta, mas bela, o que dá uma quebra no clima do disco, complementando-o. Na sequência temos a longa The Globalist, que alterna momentos calmos, tal como no seu início, que tem um assovio que remete a alguma trilha sonora western, além de uma guitarra em slide, seguindo uma linha melódica semelhante à de Aftermath, porém em seguida surge um riff e a música ganha peso, em meio a um corpo de vozes soturnas, acompanhadas por uma contagem regressiva que parece ir de encontro à destruição do mundo, seguida por sua vez pela bateria de Howard e então logo surge um pequeno solo de guitarra e o peso dá lugar a uma linha de piano e novamente a voz de Bellamy. Sua letra soa melancólica no início, como um diálogo em direção a um indivíduo, o estimulando a surgir como um deus de seu mundo para então dominar e destruir. Dá a impressão que o sistema capitalista fala com ele, ou talvez a forma de inteligência artificial dominante, fato é que alguma força maior lhe diz para “destruir para construir”, numa espécie de pensamento modernista. Após a passagem pesada e a volta da voz, a letra soa ainda mais melancólica, com agora o protagonista lamentando o mundo destruído deixado para trás, todas as culturas e virtudes humanas destruídas em nome do progresso assassino, e no final, ele clama que só precisa de amor. É uma música interessante, lembrando o final do disco The Resistance, onde há três faixas que complementam um tema em si, tal como em uma sinfonia, no entanto em The Globalist, os três momentos se encontram na mesma faixa, que soma mais de dez minutos. Para encerrar o trabalho, a banda apresenta uma espécie de canto gregoriano, faixa esta que possui o título do disco, Drones, num tipo de oração/lamentação pela perda dos entes queridos, mortos pelos drones, e ainda, questionando a tal força superior se esta está morta por dentro; se ainda sente algo, e por fim, afirmando que esta agora pode matar da segurança de casa através dos drones, encerrando a lamentação com um “amém”.
 O disco como um todo é muito bom, alternando peso e efeitos às vezes moderados, sem muita inserção de piano e batidas eletrônicas, também não há sinais do groove dos outros discos, porém esta era a proposta desse trabalho. A banda divulgou que o disco teria como característica o peso dos primeiros trabalhos, o que de fato ocorre em duas ou três faixas, no entanto, a banda não soa mais como naquele início, o que é natural e até saudável, já que a principal característica do Muse é a mistura de estilos muito distintos e uma nova sonoridade a cada disco. É possível dizer então que Drones não soa como “algo extremamente novo”, algo inédito em relação à própria banda, como ocorrera em quase todos os seus trabalhos, já que conta com elementos musicais de toda a carreira, motivo evidenciado pelo riff de Psycho, que já existia desde 2004 pelo menos, então o álbum soa como uma coletânea de alguns elementos que a banda explorou na sua trajetória. Pensando assim, poderia soar como algo prostrado musicalmente, mas não, é um disco que busca resgatar o espírito dos antigos fãs de seu peso melancólico, e ainda, penso que o verdadeiro empenho da banda foi em relação às letras, criando um disco conceitual, que critica e até profetiza um futuro onde somos dominados por máquinas criadas por nós mesmos, ou por um governo humano latente nessas máquinas, um pensamento oriundo da cibercultura desde os anos 80, também prevê o deslumbre de um mundo fatalmente destruído e aponta o apelo sentimental primitivo, que é consequente ao vazio desiludido perante a destruição causada pelo progresso racionalista e mortal, que acaba com a vida do planeta e, consequentemente, com a vida humana.

 Já são vários os registros ao vivo disponíveis na internet da turnê de 2015, com shows ocorrendo neste momento por toda a Europa, onde podemos assistir as performances de faixas como Mercy, Psycho, Dead Inside, The Handler e Reapers, esta que ao vivo assombra pela qualidade, porém talvez incomode o demasiado efeito posto na voz de Bellamy no seu refrão, ainda maior que no registro em estúdio. Em outubro, a banda se apresenta no Brasil, no Rio de Janeiro e em São Paulo, nos dias 22 e 24 de outubro respectivamente. 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Animatrix - The Second Renaissance: A Queda da Humanidade e o Triunfo Mortal da Cibernética



 Os capítulos da animação Animatrix chamados The Second Renaissance abordam a queda da raça humana perante o domínio das máquinas; mostra o período que antecede essa dominação; a guerra entre homens e máquinas; o exílio dessas máquinas; a sua vitória; a exploração do corpo humano para a extração de energia e a criação do mundo virtual implantado nas memórias humanas, a Matrix.
 A animação é dividida em nove partes, todas abordando o universo mostrado no filme Matrix, onde o herói Neo busca a salvação dos sobreviventes da raça humana na última cidade livre restante, Zion. Os dois capítulos The Second Renaissance têm sua história contada a partir do acesso aos arquivos históricos de Zion.
 A obra é uma coprodução entre Estados Unidos e Japão e conta com vários diretores, inclusive a dupla de irmãos responsáveis por Matrix, Andy e Larry Wachowski.
 Animatrix, assim como o filme que o originou, revela muitos traços religiosos, apontando referências da cultura judaico cristã, além da arte com influência da cultura hindu, porém na narrativa é onde as referências religiosas são mais evidentes, fazendo muitas analogias à bíblia, principalmente ao livro de Gênesis, distorcendo o texto sobre a criação do homem por um deus, mas contando a criação das máquinas pelo deus homem. 
 A arte da obra aponta traços do anime japonês, além da computação gráfica, evidenciando então a parceria EUA – Japão. Os dois episódios em questão ainda contam com a direção de Mahiro Maeda e com o roteiro inspirado pelos quadrinhos dos irmãos Wachowski.
 O que fica claro na produção, que é de 2003, é a inevitável relação contextual com a crise sócio cultural em que está inserida, quando então, há menos de dois anos antes, ocorreram os atentados ao World Trade Center. A forma como é tratada a crise em relação à independência das máquinas é muito semelhante ao medo que as grandes potências mundiais tinham, e ainda têm, em relação à dominação muçulmana. É possível notar em cenas sutis, como a em que uma mosca é morta sobre o mapa do Iraque, além da forma como são tratadas as máquinas humanóides após a ilegalidade de suas existências, muito parecida com a intolerância praticada em relação aos muçulmanos após o fatídico 11 de setembro de 2001, onde muitos destes foram hostilizados pelo mundo, tal como os robôs os são na trama, estes que revelam inclusive a noção de suas existências, mostrando sentimentos humanos e apelo por suas vidas. Também é evidente a analogia ao contexto da época na escolha da localização do refúgio e construção da nova civilização pelas máquinas, que hoje é exatamente onde fica o Iraque e que um dia foi o berço da civilização humana, a Mesopotâmia, revelando por sua vez, o sentido do título dos episódios, a Segunda Renascença, porém nesta, diferente da primeira, onde o homem se liberta da Idade Média e, em parte, dos dogmas religiosos, há a então libertação das máquinas do domínio humano, assumindo o poder não apenas sobre suas próprias existências, mas poder sobre o seu criador.
Nesta cena de The Second Renaissance, um grupo de
humanos humilha e destrói uma máquina humanóide
de aspecto feminino, que clama por sua vida,
em uma cena forte e de apelo simbólico
 A obsessão do homem pelo desenvolvimento tecnológico, tanto nas ciências quanto no imaginário artístico, existe desde meados do século XVIII, com o surgimento da revolução industrial e a influência do pensamento iluminista e modernista, porém no caso específico de Animatrix, essa obsessão transcende a exploração do espaço, dos ciborgues e demais artigos oriundos da cibercultura, difundida massivamente nos anos 80. O que Animatrix aborda, assim como o longa Matrix, vai além, apontando a revolta da criatura perante o criador; o martírio da criatura diante da rejeição de seu criador, tal como o monstro de Mary Shelley no seu clássico absoluto Frankenstein, apropriadamente também chamado de O Prometeu Moderno, mas ainda, mostra a dimensão atingida pelo conceito de ciberespaço, onde nesse futuro, em que seres humanos nada são além de fontes de energia, a imersão contínua nessa realidade virtual é imposta a fim de amenizar o sofrimento do ser humano, para então um melhor aproveitamento na extração de energia. É aí que a obra atinge o seu apogeu sobre o imaginário da cibercultura, na criação dessa ilusão funcional criada pelas máquinas, denominada Matrix, conceito este herdado do clássico da literatura ciberpunk, Neuromancer, de William Gibson, lançado em 1984. É a revelação do medo do homem moderno, o medo do iminente fracasso perante a sua tecnologia, o medo de ser engolido por sua criação.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Transcendence - A Revolução - 2014

 Com uma atuação minimalista de Depp, porém com um roteiro que impressiona nos detalhes
científicos, o filme aborda mais uma vez o tema acerca da inteligência artificial e as possíveis consequências destrutivas dessa tecnologia, tema este tão explorado na década de 80, mas que retorna com força no século XXI. Talvez desde a aclamada trilogia Matrix, ou alguma obra específica de Spielberg, não via-se tamanha precisão na projeção distópica de um futuro onde as máquinas, apoiadas pela capacidade autônoma de tomada de decisões, superam em muito as qualidades humanas de construções tecnológicas, baseadas na nanotecnologia e na cibernética em geral. A trama tem clichês, como a relação amorosa em paralelo à tensão sobre o futuro da humanidade, porém levanta questões sobre a possibilidade de uma mente consciente, criada em computadores, ou como no caso do roteiro, questiona como uma mente humana, copiada para uma máquina, uploadeada e permanentemente conectada à internet, goza de um poder absoluto, com acesso total a bancos de dados de todo o planeta, tal como um deus onipresente em toda a rede, onde os humanos seriam semelhantes a nada mais do que animais de estimação; operários a serviço da causa maior da transformação total do mundo tal como conhecemos, em benefício do desenvolvimento dessa inteligência e seus objetivos globais, transcendendo a vida e a existência da humanidade para, portanto, uma nova forma de vida e de existência aperfeiçoada. Levanta também as questões sobre a afirmação da auto consciência, e ainda, resgata mais uma vez os grupos entusiastas contrários ao avanço da tecnologia, que na trama, obviamente, são tratados como terroristas. 
 Além de Johnny Depp no papel principal, o elenco conta ainda com Paul Bettany (O Código Da Vinci; Uma Mente Brilhante), Morgan Freeman, Rebecca Hall (Vicky Cristina Barcelona), Cillian Murphy (Batman Begins; Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge) e Kate Mara (American Horror Story), o filme ainda tem a produção executiva de Christopher Nolan (Trilogia Batman) e conta com a estreia como diretor de Wally Pfister, que assina a fotografia de várias das obras de Nolan.
 Um ótimo filme de ficção científica, levantando vários questionamentos filosóficos acerca dessas possibilidades tecnológicas e suas assustadoras consequências.